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Um estilo de amor

Raul Drewnick

05 junho 2014 | 18:38

Tudo na vida tem um rótulo. Nada passa diante de nós sem levar o carimbo de uma definição. Batemos o olho num cinquentão de gravata que nunca vimos antes e já vamos supondo: taí um sujeito sóbrio. Somos apresentados a uma mulher de trinta anos e, porque ela sorri muito, concluímos: é uma imatura, uma volúvel.
Já na página inicial de um romance, decidimos: este aqui escreve no estilão do Philip Roth – e, prendendo o fôlego, nos preparamos para uma cena de sexo que certamente virá na página 2.
O estilo é uma desses tantos carimbos que nos definem. Nós não sabemos quem somos, mas os outros sabem muito bem. Estava pensando nisso e me veio à cabeça o amor, com suas várias formas de ser, e principalmente aquela que mais simpática me parece: o amor boboca.
Falar do amor boboca é pôr em cena certas coisas já em desuso: boleros, flores, caixinhas de música, bombons. É ressuscitar passeios por parques, de mãos dadas, é trocar beijinhos com gosto de hortelã no cinema.
Uso imagens antigas, substituíveis por equivalentes atuais, como aquelas caretinhas que se trocam de micro para micro, com afeto, ou aquelas expressões como //*::=(), tão tresloucadamente carinhosas.
Do jeito antigo ou do moderno, acho bonito esse estilo de amor que não tem vergonha de se mostrar ingênuo, de se exprimir com poemas copiados do google, de lembrar (com precisão de dia, hora e minuto) o momento em que os quatro olhos se viram pela primeira vez e se enamoraram (!)
Para os que já viveram um amor boboca, estou chovendo no molhado. Para os que o viveram e estiverem jurando agora que nunca mais vão entrar numa furada igual, digo que dificilmente manterão a palavra. Sei como pode ser grudento um amor boboca e quantas saudades ele deixa.
Para aqueles que possam estar tentados a entrar nesse barco, não sei o que dizer. Não há esquemas para se amar bobocamente. Não há truques, não há decálogos. Amar bobocamente é estar no paraíso sem saber onde se está, nem como se chegou ali. É uma dessas coisas que não se conquistam com trabalho nem persistência. O amor boboca simplesmente cai do céu. E como cai suave.

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