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A ditadura do elogio

Ruth Manus

quarta-feira 27/08/14

Acordo cedo, tomo café da manhã, coloco um legging preto, uma camiseta e saio a pé. Opa, esqueci uma coisa. O casaco que vai na cintura. Não porque eu ache que vou sentir frio na aula de Zumba, mas porque “legging”, “mulher” e “andar na rua” formam uma combinação que tende a trazer aborrecimentos. E […]

Acordo cedo, tomo café da manhã, coloco um legging preto, uma camiseta e saio a pé. Opa, esqueci uma coisa. O casaco que vai na cintura. Não porque eu ache que vou sentir frio na aula de Zumba, mas porque “legging”, “mulher” e “andar na rua” formam uma combinação que tende a trazer aborrecimentos.

E não precisa ser legging. Quem de nós, ao se vestir, usa aquilo que realmente tem vontade?  O mini short num dia de calor, a calça branca quando dá vontade, a blusa decotada quando estamos bronzeadas? Somos, efetivamente, donas do nosso corpo e do nosso guarda roupa? Ou há uma censura, da porta para fora, que nos faz pensar 20 vezes antes de escolher?

E sabemos que não é preciso ser nenhuma panicat ou atriz global para sofrer com esses incômodos. Qualquer uma de nós, reles mortais com todas suas imperfeições, lida com esse tormento diário, ao qual vamos tristemente tentando nos habituar.

Quantas de nós já atravessaram a rua para fugir de um grupo de homens, tentando evitar seus gentis “elogios”?

E quando coloco a palavra elogio entre aspas, não estou me referindo só a aqueles comentários grosseiros da família do “ô delícia” e do “ô lá em casa”. Coloco também aqueles que supostamente não são agressivos como o “linda você, hein gata?” e os beijos estalados lançados pela janela dos carros.

Todos eles pertencem a uma mesma categoria: aquela dos elogios que não queremos ouvir.

Junto a eles, tão indigestos quanto, entram os olhares insistentes. Aqueles que não vêm acompanhados de nenhum ruído, mas que conseguem nos constranger, nos acuar, nos ofender.

Alguém consegue me dizer que isso não é uma forma de violência?

E acontece em todo canto. No trânsito, quando estamos cantarolando animadas até perceber que estamos sendo ostensivamente observadas. No restaurante, por aquele cara da outra mesa que nos faz ter vontade de mudar de lugar. Na praia. No metrô. Na fila do banco. No balcão da farmácia.

Minha mãe diz que um lado bom de envelhecer é ir se livrando de tudo isso. Precisaremos esperar por isso? E será que nossas filhas ou netas passarão pelas mesmas coisas? Será que aos 12 anos elas já vão se culpar por um vestido de verão num dia de 30 graus, porque alguém gritou “gostosa!!” do outro lado da rua? Será que elas também vão precisar do moletom desnecessário na cintura?

Prezado Cara Que Não Conhecemos,

(não nos importa quem é você: se está de terno ou de capacete, se trabalha no escritório ou no lava rápido, se está de Kombi ou de i30.)

nos dê um presente hoje.

Não nos elogie. Não nos olhe desse jeito. Guarde suas palavras para sua esposa, sua mãe, sua tia. Alguém que as queira.

Mas nos dê de presente o direito de andar pela rua prestando mais atenção nas árvores que estão floridas do que ansiando pela possibilidade de você nos aborrecer.

Elogio goela abaixo não é elogio, moço. É grosseria. E obrigada por oferecer, mas, sinceramente, dispenso.

 

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