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Casa da mãe Joana

Marilia Neustein

18 agosto 2014 | 14:07

Em meio ao estresse de não poder tomar banho em sua própria casa, o lar da mãe se revela um verdadeiro hotel, pelo menos aos olhos da filha que mora sozinha. Toalhas quentinhas, macias (onde eu compro as minhas toalhas, meu Deus?), ducha maravilhosa – não aqueles micropingos caídos em pleno inverno, que demoram horas para tirar o xampu.

Era para ser uma coisa simples. “Vamos trocar a coluna do banheiro de todos os apartamentos do lado esquerdo do prédio”, disse a síndica na reunião de condomínio, há alguns meses. Enquanto os moradores discutiam se deviam ou não instalar um bicicletário na garagem, podar a árvore da frente ou se deveriam comprar câmeras de segurança, confesso que a informação da obra ficou esquecida. Eram tantos conflitos presentes naquele ecossistema: o choque de gerações – os moradores mais antigos não entendendo nenhuma proposta feita pelos mais novos; o choque político – os mais conservadores enfrentando a linha mais progressista; os que são contra o jardim dos fundos brigando com os “verdes”, que defendem o meio ambiente; o povo fitness que quer aumentar a academia e quem é da mentalidade “se quer fazer esporte, anda na praça aí da frente”. É na reunião de condomínio que as pessoas realmente se revelam, e o valor cobrado só… $$.

Então, a obra chegou. Meu banheiro – assim como o de todos os apartamentos do lado esquerdo do prédio – foi quebrado sem previsão de finalização. Uma revisão rápida passa pela cabeça: “Mas essa obra foi votada?”; “Falamos em data?”; “Quem aprovou isso?”.  O primeiro instinto é querer sucumbir ao estilo “reunião de condomínio” e partir para a briga, assim como todos os outros moradores. Reclamar, gritar, reivindicar, colocar a culpa nos outros. Mas é inútil, sabemos. O banheiro estava quebrado e não tinha mais o que fazer, a não ser esperar algumas semanas.

Quando parecia não haver mais consolo, eis que surgiu uma salvação: a casa da mãe. Em meio ao estresse de não poder tomar banho em sua própria casa, o lar da mãe se revela um verdadeiro hotel, pelo menos aos olhos da filha que mora sozinha. Toalhas quentinhas, macias (onde eu compro as minhas toalhas, meu Deus?), ducha maravilhosa – não aqueles micropingos caídos em pleno inverno, que demoram horas para tirar o xampu. Hidratantes de todos os tipos, coisas que elas compram em viagens, cheirinhos, mimos. Isso sem falar na geladeira da casa da mãe, que está sempre cheia: não tem apenas água, requeijão e meia torta de frango. Há opções. É um verdadeiro passeio em supermercado. Casa de mãe tem remédio para todas as dores: de cabeça, de barriga, de garganta. Tem inúmeros utensílios de cozinha e até leite quente no café da manhã.

É claro que algumas semanas de convivência mostram que nem só de rosas e confortos é feita uma relação entre mãe e filha. Elas perguntam da vida, querem saber detalhes, o que você falou com o seu analista, que horas você vai chegar, se pressionou a síndica para saber da obra, quando você e seu namorado vão juntar os trapos. Nada fora do normal, mas dá saudade do seu silêncio. Passados esses dias, voltei à rotina um pouco mais exigente. Será que algum dia minha casa será organizada e completa como a da minha mãe? A parede do banheiro, pouco a pouco, está sendo reconstruída, mas a lembrança da ducha deliciosa e do café da manhã não saem da minha cabeça…

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