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Da Era Dourada para o século 21

Steven Kurutz - The New York Times

23 Agosto 2014 | 22h 00

Casa colonial dos EUA passa por restauração e recebe sistema de produção de energia em busca da autossuficiência energética

Era uma manhã nublada e cinzenta, e a cerração pairava sobre o terreno de Stonlea, uma vasta propriedade da Era Dourada (período que vai dos anos 1870 aos 1890) em uma encosta virada para o Lago Dublin, na cidade de mesmo nome, no Estado americano de New Hampshire. 

Polly Guth, a proprietária, de 87 anos, mostra alguns dos cômodos da casa, que exibe uma grande quantidade de itens da Era Dourada. “Transformamos o hall principal no que chamamos de Sala do Pergaminho", disse Polly, apontando para uma coleção de pergaminhos chineses antigos enquadrados nas paredes. “E esta é a biblioteca”, ela disse, entrando numa sala confortável com uma parede de janelas com vista para o gramado e o lago. 

Na ala da cozinha, Polly,filantropa e descendente de um dos fundadores da companhia farmacêutica Merck, conta que tudo era originalmente a área dos fundos para os empregados - uma referência às origens de Stonlea como casa de verão no leste de prósperos plantadores de fumo de Saint Louis, concluída em 1891 pelo escritório de arquitetura Peabody & Stearns de Boston. 

Depois de um longo corredor é possível discernir, através da cerração, 16 pedestais de aço gigantes, cada um equipado com painéis solares. "Eu não queria ser discreta com eles. Queria que as pessoas soubessem que esta casa era aquecida por painéis solares. Acho que eles fazem uma bela figura”, disse Polly. 

O campo de geração de energia solar faz parte de um improvável projeto na vida de Polly. Cinco anos atrás, em uma época em que muitas pessoas de sua idade estavam se mudando para apartamentos de quarto e sala, ela adquiriu esta casa em estilo colonial de 1.115 metros quadrados num terreno de 12 hectares e tratou de enfrentar, como ela polidamente o colocou, a manutenção atrasada. 

Hugh Hardy, o arquiteto responsável pela restauração, disse que a propriedade estava caindo aos pedaços. Mas mais do que apenas restaurar e trazer Stonlea para o século 21, Pololy queria que ela não consumisse mais energia do que era capaz de produzir. “Fiz isso para outras pessoas seguirem o exemplo”, afirmou. 

Parte preservação histórica, parte experimento de edifício “verde”, a transformação foi recentemente relatada em Stonlea: A Timeworn Gilded Age Survivor Transformed, de Peter W. Clement e Victoria Chave Clement (Stonlea, A Transformação de um Sobrevivente da Era Dourada Gasto pelo Tempo, em tradução livre), da editora Bauhan. O livro está repleto de fotos históricas e um relato despojado da reforma, que ocupou dois anos, dois arquitetos e uma equipe de engenheiros, especialistas e construtores. 

Olga Davidson, filha de Polly, disse que a reforma fazia sentido prático, apesar da idade avançada de sua mãe e dos desafios de casas como Stonlea. “A ideia é pegar o que todos veem como um elefante branco, restaurá-lo e fazê-lo funcional”, disse Olga. E realmente funciona. 

Foi ela quem sugeriu à sua mãe a compra de Stonlea. Na época, Polly e o marido, John N. J. Guth, que morreu em maio, estavam dividindo seu tempo entre uma casa que construíram em Corning, Nova York, e um chateau do século 12 na Suíça. E Polly já queria ficar mais perto de sua família. 

Olga, possuía uma casa que fizera parte da propriedade de Stonlea. Quando a casa principal foi à venda, disse à mãe que elas podiam criar um complexo familiar. Polly comprou Stonlea por US$ 1,7 milhão (cerca de R$ 3,8 milhões), sem olhar. (Continue lendo depois da galeria.)

Em busca da autossuficiência
Trent Bell/The New York Times

A fachada da frente da casa de 1.115 metros quadrados, construída em 1891

O imóvel era estranhamente dividido, com entradas e zonas separadas para os proprietários e os empregados, cujos aposentos eram buracos minúsculos e escuros. Nas palavras de Hardy, nem mesmo os ricos de hoje vivem mais dessa maneira formal e ritualística. Para torná-la útil, era preciso mudar isso. 

A identidade de Stonlea como um retiro apenas para verão também se mostrou um remanescente problemático do passado. As paredes eram precariamente isoladas e as fundações estavam cheias de vazamentos. 

Polly poderia ter injetado isolante nas paredes e aumentado seu termostato para cobrir a inevitável perda de calor. Mas seu desejo de uma casa que não consumisse mais energia do que era capaz de produzir requeria uma abordagem mais rigorosa. A casca externa de Stonlea foi totalmente desmontada e o edifício foi impermeabilizado: alicerces consertados, peitoris remendados, chaminés repintadas, novo isolamento instalado, o telhado coberto por telhas de madeira e revestimento mais sólidos. 

As janelas de vidro único foram trocadas por outras de vidro duplo; com a adição de uma janela de tempestade interna, se tornaram de vidro triplo. Enquanto isso, testes foram feitos para determinar quanta energia seria consumida por ano e como atender a essa demanda com um sistema que depende de uma combinação de energia solar e geotérmica. 

Um sistema solar padrão de 5 quilowatts no telhado, ou mesmo vários deles, não ia resolver. O conjunto de energia solar que acabou sendo instalado era um sistema de 50 quilowatts capaz de gerar 70% das substanciais necessidades de energia anual da casa. 

Peter Bonneau, o gerente de construção do projeto, disse que Stonlea era, na época, o maior conjunto de energia solar residencial privado em New Hampshire, tão grande que a armazenagem convencional em baterias não seria prática. A energia é enviada diretamente à companhia de eletricidade em tempos de superávit e a energia é adquirida conforme for necessário (no auge do inverno, por exemplo). 

Pode ser mais realista para donos de casas grandes antigas criar um plano mestre energético estratégico, e trabalhar para a igualdade de produção e consumo com o tempo. Stonlea talvez seja menos um novo modelo de eficiência energética para casas antigas, como pretende Polly, do que um ideal filosófico materializado pela vontade de uma mulher. 

“Muitas pessoas ricas podem ou não pensar que isso é importante”, disse Hardy. “Polly sentiu que era importante estabelecer um padrão para tornar uma grande casa antiga relevante.” 

Mas duas características que fornecem conforto a Polly impediram Stonlea de atingir a meta de igualar produção e consumo de energia. A casa tem cinco lareiras a gás, por isso as chaminés precisam ser abertas para ventilação, e a proprietária converteu uma sala de bilhar em academia, com uma piscina aquecida onde nada todos os dias e prefere não cobrir. O gasto de energia das duas foi maior do que o previsto. 

Mesmo assim, para uma casa desse tamanho, o custo da eletricidade tem sido baixo, conforme se pretendia. O custo total de calefação, água quente e aparelhos elétricos nos últimos meses alcançou uma média de US$ 250 (R$ 570) mensais. Essa cifra era 50% superior antes de melhorias recentes no uso de energia, como o ajuste da inclinação dos painéis solares duas vezes por ano, na primavera e no outono, que aumentou em 30% a produção, e a operação cíclica das bombas da piscina em vez de sua operação contínua. 

Houve uma curva de aprendizado para todos neste projeto e Polly espera que os que ouvem falar de Stonlea aprendam algo também.“Isso mostra que uma casa grande e velha pode continuar relevante”, disse ela. Apesar de a casa mudar de famílias e os tempos mudarem. 

/ Tradução de Celso Paciornik 

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