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O paisagista do mundo

Jennifer Gonzales - O Estado de S.Paulo

05 Janeiro 2008 | 23h 51

Pelos quatro cantos do planeta, Enzo Enea cria jardins com forte apelo para integrar homem e natureza

O paisagista suíço Enzo Enea não tem mais tempo para surfar. A doce rotina na ilha de Maui, no Havaí, onde dividia seu tempo entre as ondas do mar e a instalação de um novo jardim no Hotel Sheraton local, ficou para trás. A vida definitivamente tornou-se mais corrida, mas ele ainda passa boa parte dos dias como gosta: ao ar livre, criando paisagens que integram homem e natureza pelo mundo afora. Seu nome conquistou tamanho prestígio - em 1998, ele ganhou a medalha de ouro do Chelsea Flower Show, a exposição de paisagismo mais famosa do planeta - que chamou a atenção até do príncipe Charles, da Inglaterra, um apaixonado por jardins e com quem atualmente faz negócios. Em outubro passado, Enzo, de 43 anos, esteve em São Paulo para uma palestra no 10º Congresso Brasileiro de Paisagismo. Não foi sua viagem de estréia ao país; em 1991, visitou Manaus, mas não foi à floresta amazônica. "É uma questão de tempo. Tenho 200 funcionários e preciso manter a roda girando", brinca. O paisagista tem uma maneira simples de ser, apesar do repertório de clientes ricos e famosos (entre eles, a cantora Tina Turner e o piloto de Fórmula 1 Nick Heidfeld). Talvez seu jeito pé-no-chão venha do convívio com a natureza, que lhe dá satisfação e alegria de viver. "Meu maior prazer é acordar todas as manhãs", diz ele, com um sotaque ora francês, ora italiano, ora semelhante ao de Arnold Schwarzenegger. Mix de paisagismo e design Formado em desenho industrial na Suíça, Enzo foi para Londres estudar paisagismo em 1987. Três anos depois, mudou-se para o Havaí, onde trabalhou como aprendiz por cerca de um ano. "Observava os americanos fazendo jardins com elementos artificiais, como pedras de cimento pintadas, e não me identificava com aquilo", lembra. O avô de Enzo, nascido em Bolonha, esculpia fontes em pedra natural e o pai seguiu a mesma tradição na Suíça, para onde migrou no final dos anos 60. "Faço um mix de paisagismo, design e urbanismo, criando unidade entre o jardim, a arquitetura da construção e seu entorno", diz esse adepto do experimentalismo. "Você nunca vai me ver reproduzindo um parque do século 18 ou algo do gênero. Prefiro interpretar estilos, misturar plantas e materiais normalmente não colocados juntos." Às margens do lago Zurique, cidade de Schmerikon, com cerca de 8 mil habitantes, é a sede da Enea Garden, laboratório de testes do paisagista, que mantém uma filial em Miami comandada pela paulistana Carolina Monteiro, arquiteta e paisagista de 28 anos. Além do escritório, a propriedade de 70 mil m² abriga uma floresta com 10 mil espécies do mundo inteiro. "Algumas pessoas gostam de colecionar antiguidades; eu coleciono árvores", diz Enzo. O local também recepciona clientes e admiradores do seu trabalho, como o príncipe Charles, que esteve ali em 2003. "O príncipe é um grande defensor do meio ambiente e fez muitas perguntas sobre jardinagem." O herdeiro do trono inglês, por sua vez, convidou Enzo para conhecer Highgrove, sua residência oficial localizada em Gloucestershire, Inglaterra, onde os jardins são baseados em práticas orgânicas. Houve uma sintonia entre os dois e Charles colocou sua linha de móveis de jardim, a Duchy Collection, para ser vendida no showroom de Enea (que tem uma linha de móveis, a Enea Collezione, de aço, madeira e PVC). "Quando casou novamente, o príncipe comprou vasos de arenito italiano que desenhei", diz Enzo, cuja casa tem uma área verde de 700 m². "É uma interpretação dos jardins japoneses, com visual minimalista, mas muito acolhedor." Se jardins refletem o estilo dos donos, pode-se dizer que o mesmo vale para Enea.

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