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Torre de marfim

Penelope Green - The New York Times

05 Julho 2014 | 22h 00

A atriz americana Melissa Leo faz de sua casa um refúgio, cheio de soluções peculiares e detalhes curiosos

Randy Harris/The New York Times
A fantástica torre de pedra e tijolos era um sonho de Melissa Leo, que a construiu com a ajuda de amigos

 

Da estrada, a casa de fazenda de Melissa Leo, construída há 200 anos, parece uma construção típica de Ulster County, região do Estado americano de Nova York, com todos os seus elementos de decoração externos: no alpendre, uma rede, sinos de vento, algumas cadeiras de lona, um manequim sem braços com um vestido florido e um boné de beisebol; no alto da fachada, um enorme símbolo da paz (Woodstock fica a 32 km de distância). 

Na parte de trás surge uma torre rústica de pedras e tijolos, revestida por um mosaico de azulejos, com nichos povoados de figuras de pedra. Esse lado da casa é recoberto de tábuas que sugerem o movimento de ondas. Sobre a porta da cozinha, uma peça sinuosa e decorada com azulejos e pedrinhas lembra um pouco Gaudí. 

A conquista da fama é recente para Melissa, na idade improvável, e por mesmo isso emocionante, de 51 anos, com um Oscar por sua atuação no papel de mãe de Mark Wahlberg em O Vencedor. Mas essa casa é algo à parte, uma atuação absolutamente única. E embora Melissa viva ali desde 1990, quando tinha 30 anos e era mãe solteira com um filho pequeno, o imóvel só passou por uma metamorfose ultimamente.

Melissa se sustenta com seu próprio trabalho desde os 16 anos, depois de uma infância peripatética, que começou no East Village. Seu pai, Arnold Leo, era editor na editora Grove Press; quando deixou sua mãe, Peggy, esta levou Melissa e seu irmão para Vermont e depois para Londres, numa série de mudanças – ela contou 23. 

No fim da década de 80, morava em Nova York e tinha trabalhado um ano fazendo a novela All My Children, da ABC, e mais alguns atuando no seriado The Young Riders. Em 1993, foi chamada para a série Homicide: Life on the Street. Seu avô lhe emprestou parte do dinheiro da entrada para a compra da casa, que custou US$ 140 mil (R$ 309 mil). Ele se recusou a receber o dinheiro de volta, mas o sucesso da série permitiu que Melissa amortizasse a dívida da casa. (Continue lendo a matéria depois da galeria.)

 

Com 92 m², e um projeto semelhante ao desenho de uma casa feito por uma criança – a porta da frente ladeada por duas janelas, quatro cômodos –, a construção fica em um terreno de 44 mil m², com um celeiro e um barracão. Nos primeiros invernos ali, dormia com o filho, Jack Heard, hoje com 27 anos, na frente do fogão a lenha. 

Alguns cômodos foram reconstruídos. O teto da sala, por exemplo, foi substituído por uma fantástica peça de cobre. Há cinco anos, Melissa recebeu a ajuda de Jason Downs, ator e músico, que apareceu e perguntou se ela precisava de uma mão na casa. Ele é um dos muitos amigos que a visitam de vez em quando para dar sua contribuição na reforma. 

O projeto inicial era ampliar a cozinha ocupando um espaço num canto da casa com uma torre. Foram usadas soluções peculiares que embelezaram as paredes com volutas entrelaçadas subindo até o alto. Como Melissa tem ideias muito pessoais sobre as formas das coisas, nem sempre consegue exatamente o que pretende. “É uma luta encontrar pessoas que não me considerem louca”, observou.

Ela conhece um pouco de carpintaria, mas é melhor como estucadora e trabalha bem com mosaico, mas não tem condições de fazer à mão todas as partes de sua casa. Enquanto isso, continua trabalhando como atriz, aparentemente, sem interrupção, numa idade em que seus contemporâneos são ignorados em Hollywood.

Constant van Hoeven, de 35 anos, artista e cineasta holandês que também entende de carpintaria, é outro de seus colaboradores e consegue executar as ideias de Melissa com precisão impressionante. Foi ele quem construiu o teto de Gaudí que coroa a porta da cozinha.

Na torre. Em cima da escada recentemente ampliada, o primeiro andar é sustentado por galhos de bordo de uma árvore derrubada durante uma tempestade; o piso envernizado de carvalho forma o desenho de uma estrela. Entra-se dali na torre, que ainda não tem móveis, mas está repleta de detalhes. Algumas janelas têm caixilhos de ferro batido, há vitrais coloridos e uma curiosa janela redonda instalada a um metro e meio do chão, apoiada sobre uma espécie de muleta revestida de cortiça. 

Quando a casa for concluída, Melissa começará a trabalhar no celeiro e no barracão, que pretende transformar num ambiente de repouso para artistas. Agora, está se dedicando a uma maquete – uma bolha de barro, vidro e pedra, uma espécie de obsessão, como a de Richard Dreyfuss no filme Encontros Imediatos do Terceiro Grau. Como será o resultado? “Vai se espalhar como os campos aqui na região dos Catskills, uma fina camada de boa terra sobre uma realidade de pedra”, explicou. 

Tradução de Anna Capovilla

Randy Harris/The New York Times
Vista dos fundos da propriedade, que é de Melissa Leo desde o fim dos anos 80

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