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Após ser vítima e autor de bullying, Mar'Júnior abraça e defende projeto anti-bullying

- Atualizado: 16 Setembro 2015 | 18h 06

A ficha caiu: "eu não acreditava ter feito tal maldade às pessoas e também pude começar a compreender todo o meu sofrimento porque eu também fui massacrado quando criança", desabafa

"Eu sofri. Eu pratiquei. Hoje eu conscientizo", diz o ator e diretor de teatro Mar'Júnior

"Eu sofri. Eu pratiquei. Hoje eu conscientizo", diz o ator e diretor de teatro Mar'Júnior

O ator e diretor de teatro Mar'Júnior (nome artístico), 53, conhecido pelo espetáculo "Bullying" nas escolas, sabe na pele o que é ser vítima e autor de bullying. Tendo como base o que sofreu e praticou na infância e adolescência, escreveu a peça sobre bullying. Além da Cia. Atores de Mar, Mar'Júnior escreveu um livro autobiográfico chamado "Eu sofri. Eu pratiquei. Hoje eu conscientizo", no qual conta sobre suas atitudes quando sofria e praticava o que hoje sabe que é bullying.

Hildemar Barbosa Filho nasceu no Rio de Janeiro em 1961, sendo o homem mais velho de uma família de cinco irmãos por parte de mãe e mais quatro por parte de pai. Devido a uma briga dos pais durante a gestação de Mar, seu pai sempre duvidava se realmente Mar era seu filho. Talvez por isso tenham começado as agressões verbais e físicas. O que o pai não sabia é que ao chamar seu filho de burro e não dar atenção, somente broncas, estaria colaborando para a criação de um valentão, um ator de bullying, que hoje é tão temido pela sociedade.

Muito antes de se tornar um encrenqueiro, Mar'Júnior sofreu em casa e na escola. Foram vários apelidos que ele recebeu: maricas, coalhada, burro, mamá. Mas o que mais lhe machucava era ser chamado de burro. Sofreu tanto que reprovou vários anos até largar a escola. Não podia contar em casa o que sofria, pois apanhava do pai, que era policial e trabalhava no DOPS durante a ditadura. Mar'Júnior terminou o segundo grau em 2009, depois de 30 anos longe da escola. "Era um sonho terminar a escola", conta. "Queria fazer uma faculdade, mas ainda não consegui por falta de tempo. Queria fazer psicologia".

Mas o que o fez mudar de vítima para agressor? Isso ele mesmo conta: "Quando eu tinha uns 13 anos, tinha um cara na rua que me perseguia e um dia eu estava passando na frente da casa dele e ele começou a me desafiar e disse que ia descer para me bater. Eu tinha pavor só de ouvir o nome dele. Um outro rapaz vendo a cena, falou: "Hildemar, chega, você é mais forte do que este cara. Me dá este pão aqui e encara-o. Vai rapaz, você consegue. Você é filho de policial. Deixa de ser frouxo". Eu nem precisei brigar fisicamente com ele. O mesmo pavor que ele me fez durante anos, se voltou contra ele. Daquele dia em diante a vida do menino se tornou um inferno. Eu o persegui durante muitos anos. Enfim, eu não era mais um banana e sim 'o cara'". O que ele sofreu, fez os outros sofrerem. Depois disso foi fazer artes marciais para ser mais forte e chegou a usar drogas. 

Sem mais ser vítima, agredia quem passasse em seu caminho. "O fato de ser autor de bullying fazia com que eu fosse mais popular na época da escola, e mais respeitado. 'Pegava geral'! As meninas gostam de um valentão! Elas não gostam de bocós", conta Mar'Júnior. Nessa época, seu pai começou a valorizá-lo, achando lindo ter um filho que não levava desaforos para casa. 

"Um dia, um menino foi até a quadra da escola e me ameaçou, dizendo que a turma dele estaria lá fora me esperando. Eu pulei o muro e corri pra casa. Lá, na cozinha, contei o caso para os meus papais e disse que ia armado para a escola. Eu tinha uns dezessete anos. No dia seguinte, dentro da escola, o menino que me ameaçou veio correndo pedir a minha ajuda e me contou que meu pai resolveu parar o trânsito em frente à minha escola com uns dez camburões da polícia civil e deu pau em muita gente, colocando-os dentro do camburão. Eu sei que daquele dia em diante, aqueles que ainda tentavam ou pensavam em me menosprezar ou me intimidar, nunca mais o fizeram. Passado este momento, o respeito por mim aumentou e eu, covardemente, aproveitei esta fama de mau, a qual meu pai acobertou, orientando-me a agir com mais rigor contra os meus 'inimigos'", relata Mar'Júnior em seu livro.

Só entendeu tudo o que havia feito quando leu o caso de um menino que invadiu uma escola na Alemanha e matou uma série de colegas, professores e funcionários. Como chamou muita atenção, começou a pesquisar e entender melhor este tipo de coisa. Foi aí que descobriu: "Eu tinha praticado o bullying. Foi muito chato eu ter esta certeza. Eu não acreditava ter feito tal maldade às pessoas e também pude começar a compreender todo o meu sofrimento porque, como você já sabe, eu fui massacrado quando criança", desabafa Mar'Júnior.

A partir daí, Mar'Júnior começou a estudar e a entender este fenômeno. Criou uma escola de teatro e o espetáculo "Bullying", que relata o dia a dia dos alunos em sala de aula, mostrando o problema e oferecendo possíveis soluções. Após o espetáculo, ele faz um debate e abre espaço para quem quiser contar sua experiência. Desde 2004, tem viajado por todo Brasil para conscientizar e combater o bullying. Com esse projeto, a Cia. Teatro do Mar já teve convite para ir a Portugal e aos Estados Unidos.

Ao ser questionado se é possível erradicar o bullying, ele responde: "O bullying é uma ferida muito mais profunda do que simplesmente um fenômeno escolar. Mostra como a base está desestruturada: a educação em casa. O bullying estourou na escola, mas começou em casa. Por isso, não acaba, só tende a aumentar. Enquanto a família não for estruturada, vai haver bullying. Os professores não têm mais autoridade e não podem gritar com os alunos. Mas é esse cenário que me dá mais forças para continuar".

Ele finaliza com seu testemunho e uma lição para os que vivem ou viveram o mesmo que ele: "Fui taxado inúmeras vezes de 'burro' pelo papai e pelos meus professores. Mesmo com toda esta dificuldade e por ironia do destino, eu me tornei autor teatral, roteirista e escritor, além de ministrar aulas para teatro, cinema e televisão. Mesmo a minha história de vida tendo sido difícil, triste, eu me tornei um cara que faz história no teatro com espetáculos alegres, divertidos e despretensiosos. Eu sei que hoje eu posso dizer e sentir: eu venci!".

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