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Cuidando da minha amiga à beira da morte

- Atualizado: 23 Janeiro 2016 | 06h 00

Viver como se você estivesse morrendo seria um sentimento melhor se morrer não fosse tão horrível

Num diagrama de Venn de cuidados com pessoas no final da vida, o círculo de dedicação a uma pessoa que está morrendo se sobrepõe quase que completamente ao das atenções desprendidas com um bebê. Ambos são repetitivos, íntimos, geralmente pesados. Algumas vezes engraçados, estranhamente frenéticos mesmo quando são esmagadoramente entediantes, mas são um ato de total dedicação. Na parte em que os círculos não se sobrepõem, aquela do fim do círculo, há dor, aflição, desespero e o desaparecimento incômodo. 

Existe um movimento não para frente, na direção da consciência, mas para trás, na direção contrária. E, apesar de toda a sua paciência inesgotável, não há nada no final. Apenas morte. E seu único trabalho é um tipo de cuidado maternal que vai até a beira do abismo.

Muitas pessoas já sabiam disso, mas eu não. Ali, de 47 anos, minha melhor amiga havia 44, estava morrendo de câncer nos ovários numa clínica em Coney Island e eu era novata nessas coisas de morte. Eu conseguia folhear meu caderno mental das nossas vidas compartilhadas: eu pregando botões na última hora em seu vestido de noiva; nossas tardes da adolescência em Postermat, na Rua Eighth; as cartas em dobradura enviadas do acampamento. E também dos nossos bonecos Snoopys de pano, que costumavam ficar doentes e tinham de ser enfaixados com lenços de papel, além de serem alimentados com pedaços de bolacha de gengibre. A febre dos brinquedos era curada com pedras de gelo enquanto assistíamos reprises de "Emergency!" Mas, como adulta, eu realmente não havia tido de lidar com isso. 

Morte, não seja tão orgulhosa. Também, não seja tão bagunceira e exaustiva

Morte, não seja tão orgulhosa. Também, não seja tão bagunceira e exaustiva

A situação já estava difícil antes de piorar mais do que poderíamos imaginar, quando achávamos que as coisas já haviam chegado ao ponto máximo. Naquela época, Ali ainda estava no hospital. Era o começo do fim e ela sentia muita dor. Ela precisava ser massageada e amparada, e também comer pedaços gelados de melancia pelo bem da sua saúde. Ela tinha um terrível tubo que levava o conteúdo de seu estômago para uma bolsa, o que a deixava com uma sede absoluta. Quanto mais ela ingeria líquidos, mais o tubo drenava e mais sedenta ela ficava. De vez em quando ela ficava maluca por um tipo específico de água mineral alemã, a seguir por picolés e morango, e depois por soda de grapefruit San Pellegrino. Tendo em vista que meus filhos, quando bebês, eram do tipo que mamavam a cada 20 minutos, isso era habitual para mim.

Eu dizia que ira sair por um minuto para tomar um ar fresco, mas eu nunca saía - nunca havia tempo - embora o tempo passasse tão penosamente devagar. Quando se está grávida, ouve-se que o bebê vai dormir 20 horas por dia mas, de alguma forma, os minutos nunca se juntam em pedaços significativos. Era isso que acontecia quando eu estava com Ali. Ela precisava de um pijama seco, lençóis limpos, mais gelo, um pouco de iogurte. Ela precisava de uma nova bolsa de drenagem e de uma bandeja limpa. Ela precisava que seu sangue fosse coletado, de injeções de potássio e que um ansiolítico fosse acrescentado aos medicamentos que já tomava. Levou uma hora até que seu marido, David, eu e uma enfermeira conseguíssemos transportar a cadeira onde ela estava por uma janela para que ela pusesse ver o pôr do sul e sentir a brisa, mas quando conseguimos isso ela precisou voltar para a cama. David e eu fazíamos piadas sujas sobre as meias de compressão que Ali usava e ela dava risada. Nós choramos nos braços um do outro e também ficamos entediados.

A clínica era melhor mas também, obviamente, pior. Eu não conseguia parar de olhar para os outros quartos abertos, as pessoas à beira da morte, tão palidamente deitadas em suas camas que já se pareciam com fantasmas. Havia também um bebê, morrendo do outro lado do corredor, num berço. A situação era indescritível.

Ali tinha vasos e mais vasos de flores ao longo do peitoril da janela e eu me dediquei a selecioná-las e a organizá-las. Eu peguei emprestada uma tesoura cirúrgica, abri uma toalha, retirada de uma lata de lixo, e transformei 15 vasos de rosas e hortênsias murchas em cinco jarras de flores lindas. Isso me lembrou a mim mesma, sentada perto de um bebê que cochilava, cortando minhas unhas simplesmente porque eu conseguia alcançar o cortador e era algo para fazer o tempo passar. 

Mas a situação ficou tão pior! Houve a noite em que eu dormia no sofá-cama e Ali chorou em meus braços porque seu filho pequeno estava doente em casa, com o pai, e ela não estava lá para cuidar dele - possivelmente nunca mais voltaria para cuidar dele - enquanto ingeria mais e mais líquidos. Ela tomou suco de framboesa e maçã e um shake de proteínas bege. "Meu coração está em frangalhos", chorava ela, engolindo um litro de Gatorade azul, depois do que ela disse, em meio às lágrimas e encolhendo os ombros: "Isso foi realmente muito bom!"  Nós duas rimos porque nos demos conta de que o sublime e o simples podem se aproximar de uma forma muito absurda. 

Mas as coisas ainda não estavam nem perto do ponto em que chegariam. Mais tarde, quando as palavras faltavam, Ali apertava minha mão e, com olhos e ombros erguidos em sinal de medo, estudava meu rosto. Meus filhos haviam feito isso também, quando eram pequenos. Eles olharam para os meus olhos para verificar se estavam seguros. Eu me lembro de uma vez em que estávamos num elevador e as portas se abriram numa parede, entre os andares. Dois rostinhos olhando para cima e perguntando, sem palavras: "estamos em segurança?" Sim, estamos seguros, eu sorri de volta, porque estamos juntos. O que realmente importa? Você está segura, eu sorria para Ali agora, balançando a cabeça de forma maternal.

"Você é boa, você é perfeita", eu dizia para ela o tempo todo. "Você está fazendo tudo certo" Não estávamos nisso juntas e isso não tinha nenhum significado específico, mas ela sorria e suas sobrancelhas e ombros voltavam à posição inicial novamente. Era como uma atitude de confiança e também era vida e morte.

O médico, sempre animado, passava todos os dias. Ele se parecia muito com o ator James Gandolfini e nós o chamávamos, pelas costas, de doutor Soprano. Minha amiga falava com ele como a criança que ela estava se transformando. Ela queria sair uma última vez. Primeiro, de forma ambiciosa, ela intencionava ir para a Flórida. Depois, para um hotel no Upper West Side. Quando ele finalmente disse não, que aquilo era impossível, que a viagem seria, na melhor das hipóteses, um desastre, ela ficou abatida. 

"Por que?" ela quis saber dele e depois de mim, quando o médico foi embora. "Eu não entendo. Por que eu não posso?" Eu pensei nos meus filhos, pequenos ainda, vendo as alegorias serem desmontadas antes mesmo de terem se dado conta de que o carnaval havia começado. Por que? 

Ali caiu no chão uma vez no meio da noite e eu só consegui me sentar, com a cabeça desmaiada entre meus joelhos covardes, enquanto a enfermeira e a corajosa amiga de Ali, Amanda, a levantaram. Anos atrás, quando meu filho perdeu os dois dentes da frente após uma batida, eu só consegui consolá-lo aos murmúrios enquanto limpava o sangue e colocava gelo num saco. Quando o pai dele voltou para casa, eu me ajoelhei no chão do banheiro, com a cabeça apoiada na parede e lamentei minhas covardias mesquinhas. 

Morte, não seja tão orgulhosa. Também, não seja tão bagunceira e exaustiva. Viver como se você estivesse morrendo seria um sentimento melhor se morrer não fosse tão horrível. 

Duas noites antes de Ali morrer, ela não fechava os olhos. David estava em casa, cuidando das crianças, e os pais dela e seu irmão haviam voltado para suas casas, mas de vez em quando ela imaginava que todos estavam lá. Ela era como uma criança que não queria perder nada, convencida de que o tabuleiro de Monopoly e as balas de goma iriam surgir no minuto em que ela caísse no sono. Ou como uma pessoa que não quer morrer. 

"Feche os olhos!", dizíamos eu e Amanda. Queríamos que ela dormisse, porque estávamos tão cansadas! Enchemos várias vezes seus copos com bebidas diferentes. Ela apontada para eles, um depois do outro, seis copos na bandeja. Ela estava muito fraca para segurá-los, mas recusava-se a beber com o canudo. 

Nós dizíamos o que havia em cada um e ela balançava a cabeça em aprovação. Alguns meses mais tarde, quando eu estava andando na praia, uma lembrança veio à minha mente e eu pude ser poupada de, pelo menos, parte daquela dor.

"Qual é o nome do cara...com peitos?", divagava Ali. "Peitos? Confuso?" Não sabíamos. "Vocês duas...trabalham juntas num bar?" perguntou ela quando o dia estava quase clareando, e nós rimos. Ela queria doces, que besuntássemos seus lábios rachados com hidratante, precisava de uma camisola seca. 

Ela tinha tanto frio! Seus dentes eram enormes, seus cabelos, ralos. Ela havia se tornado o cruzamento entre um bebê e uma mulher de um milhão de anos. "Tem champanhe?", perguntou ela, enquanto o sol se levantava sobre o Atlântico, e Amanda deu um suspiro, como uma mãe cansada. "São 6h da manhã, Ali. Não tem champanhe". "Diga-me que isso não foi a última coisa que eu disse a ela", pediu Amanda no velório, e nós duas rimos como doidas.

Após o nascimento do meu primogênito, eu estava estupefata com o simples fato do nascimento. "Essa pessoa!", eu dizia, agarrando a manga do meu marido. "Essa pessoa, essa única, todas essas pessoas, cada uma delas, nasceu!" Eu não estava exagerando minha admiração diante desse fato. Cada pessoa viva representa uma gravidez, um nascimento, uma chegada ao mundo! O universal pode ser tão surpreendente!

Eu tive uma revelação tão banal quanto após a morte de Ali. "Você, você e você", eu pensava no trem da Amtrak. O adolescente com seu iPhone, a mulher com seu sanduíche, meus pais, eu, cada um dos meus filhos. Todos vão morrer, com ou sem seis diferentes bebidas à sua frente. Você já sabe disso, mas eu não tinha entendido. Eu não tinha compreendido que você está preso e ama corações que podem parar de bater, e eles irão. Você os ama com seu próprio órgão retesado e cicatrizado, o que pode bater tempos depois, como um animal burro. Como um que não recebeu o comunicado sobre o coração e sobre o que o coração pode aguentar. 

 

Tradução de Priscila Arone

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