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Música na infância melhora o desempenho escolar e a autoestima

João Paulo Carvalho - O Estado de S. Paulo

30 Maio 2014 | 16h 23

"A inserção da criança ao mundo da música faz com que ela lide melhor com as impressões mais difíceis de cada ciclo da vida"

JF Diõrio/Estadão
Os irmãos Hassan Saad ( baixista) e Zein Saad ( na bateria) se ajudam durante as aulas de música

Estudos científicos recentes mostram que o aprendizado de um instrumento musical ainda na infância pode ajudar na assimilação de conteúdos de diversas disciplinas escolares. Além disso, a musicalização infantil melhora a concentração, a autoestima e a capacidade de raciocínio lógico. "Quando a criança tem um contato precoce com a música, ela, automaticamente, desenvolve melhor suas relações socioemocionais. Isso inclui a diminuição da ansiedade, déficit de atenção e a prevenção de transtornos mais graves", afirma o neurologista e neuropediatra da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Mauro Muszkat.

De acordo com o médico, a relação estimula regiões específicas do cérebro, que são ativadas especialmente no estudo de matérias como língua portuguesa e matemática. Esses conteúdos, portanto, também atuam no processamento e na produção de sentido e emoção da música. "A música tem potencial para facilitar o neurodesenvolvimento, tanto na funções cognitivas quanto nas modulações relacionadas à questão emocional. A inserção da criança ao mundo da música faz com que ela lide melhor com as impressões mais difíceis de cada ciclo da vida", complementa o médico.

Hassan Saad, 10, toca baixo há quatro meses. Fã de Beatles, Kiss e AC/DC, o garoto, que antes tinha problemas de concentração e muitas vezes não conseguia terminar o dever de casa, hoje é um estudante muito mais focado nas aulas. "Ele não conseguia prestar atenção nos professores. Quando chegava do colégio, na parte da tarde, não terminava a lição. Hassan apresentava dificuldades para ler o problema e resolvê-lo. A música deu disciplina a ele", diz a mãe Carolle Saad. 

O interesse de Hassan pela música começou em janeiro, quando o menino foi matriculado no curso de música de curta duração em uma escola na zona sul da capital paulista. "São apenas quatro meses, mas o avanço é notório. Hoje ele consegue se socializar de maneira mais saudável com as outras crianças. Hassan também desenvolveu um senso de cooperação muito grande. Ele é mais prestativo e solidário com os colegas de turma", afirma a mãe, que também matriculou o irmão mais novo, Zein Saad, 8, na aula de bateria. "A melhora é perceptível quando os dois decidem tocar juntos. Um ajuda o outro com o ritmo de cada música", complementa.

Música na escola. A importância da música na grade de educação básica já foi formalizada pelo governo em 2008, com a sanção da Lei n° 11.769, que torna obrigatório, mas não exclusivo, o ensino da disciplina na educação básica. A música, portanto, pode ser integrada a outras matérias sem a obrigatoriedade de ser específica. 

Segundo a pedagoga e professora da Pontifícia Universidade Católica (PUC), Neide de Aquino Noffs, questões como conteúdo e a falta de profissionais capacitados para o ensino da disciplina nas escolas ainda devem ser pontualmente debatidas. "Há uma discussão sobre quem deve lecionar música nos colégios. Estão habituados a relacionar musicalidade à cantigas infantis, o chamar cantar alegremente na escola. Essa visão precisa ser modificada. Portanto, eu entendo música apenas como alguém que canta na escola? A musicalidade é essencial para o desenvolvimento da pessoa e vai muito além deste conceito", ressalta a educadora.

Ainda de acordo com a profissional da educação, o Brasil tem um modelo musical arcaico. Para ela, o País precisa rever seus conceitos e implantar um novo método educacional destinado à música. "A música em nosso País ainda não possui um modelo muito sério e claro. Nós não temos a educação do ouvir, como acontece nos Estados Unidos ou em outros países da Europa. E isso, certamente, altera toda a base", conclui a professora.

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