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Na secretária, deixar o que?

Teddy Wayne - The New York Times

27 Junho 2014 | 19h 51

'Hoje parece algo inconveniente enviar uma mensagem de voz. A expectativa é trocarmos mensagens texto e, se quer falar com alguém, você retorna a sua ligação'

Miramax Films/Everett Collection/NYT
No filme "Swingers", o personagem de Jon Favreau estraga suas possibilidades românticas com uma enxurrada de mensagens de correio de voz

Numa cena memorável da comédia "Swingers" de 1996, o protagonista romanticamente desajeitado de Jon Favreau, Mike, inunda a secretária eletrônica de uma mulher que acabou de conhecer num bar com uma série de mensagens constrangedoras que acaba com suas chances amorosas.

Se a história fosse refilmada hoje, Mike teria de achar um outro recurso para suas investidas errôneas. O conceito de deixar (e checar) mensagens de voz é para os jovens da Geração Y algo tão obsoleto quando dançar swing. O número vermelho nos seus iPhones anunciando quantas mensagens de voz estão esperando? Ignorado. A gravação? Apagada instantaneamente. O desastre de Mike? Abortado.

Uma porta-voz do Vonagen disse que as mensagens de voz caíram 8% de outubro de 2013 até abril deste ano. (Os dados não estão disponíveis por idade). E um estudo da Pew realizado em 2012 sobre os hábitos telefônicos dos adolescentes em idade de 12 a 17 anos confirmaram várias verdades que são evidentes: hoje os adolescentes enviam mais mensagens de texto (mandavam e recebiam uma média de 60 por dia em 2011 em comparação com as 50 em 2009). Os que ligam por telefone fixo para falar com os amigos constituem um grupo quase extinto: 14% comparado com os 30% em 2009.

Embora esse dado relativo à telefonia fixa seja lógico, diante da redução do seu uso nas casas americanas, ele é revelador no tocante à relutância da Geração Y a enviar mensagens de voz. Tendo crescido numa cultura que privilegia a mensagem de texto, com o acesso imediato aos amigos pelo celular, esses jovens não estão habituados a deixar mensagens faladas ou transmitidas pelo telefone.

Segundo Patricia Napier-Fitzpatrick, fundadora da Etiquette School de Nova York, 30% a 40% dos seus clientes pertencem à geração Y, e suas conversas e aulas de etiqueta envolvem também o tratamento das mensagens de voz. Quando seus clientes aceitam enviar uma mensagem, ela com frequência acha que não são polidos.  "Eu os oriento a serem profissionais", afirmou ela. "Não dizer 'hei, aqui é o Bob, liga prá mim' e depois desligar. Oriento-os a dizerem alô, dar seu nome completo e deixar uma mensagem, pedindo para a pessoa retornar a ligação".

"Hoje parece algo inconveniente enviar uma mensagem de voz", disse Chris Paul, 22 anos, formado recentemente pela Duquesne University. "A expectativa é trocarmos mensagens texto e, se quer falar com alguém, você retorna a sua ligação".

Quando é obrigado a gravar sua voz ele fica um pouco nervoso. "Se for num ambiente profissional, trabalhei em algumas campanhas políticas e não tínhamos permissão para enviar mensagens de texto. É um pouco estressante".

Mesmo os jovens da Geração Y que chegaram à maioridade antes dos celulares também consideram o correio de voz uma fonte de pânico. Kate Greathead , 31 anos, escritora que vive em Nova York, não gosta de deixar mensagens de voz para seus amigos na faculdade. "Mas eu tinha de deixar e deixava", disse ela. E essa habilidade atrofiou na era da mensagem de texto? "Completamente. Estou ótima contando uma história diante de 400 estranhos, mas fico estressada quando tenho de enviar uma mensagem de voz", disse ela.

"Às vezes escrevo a mensagem antes", disse Kate. "No geral o correio de voz oferece a opção de rever a mensagem. Se não existe a possibilidade não deixo uma. Se existe, revejo o que disse antes de enviar e às vezes repito a mensagem várias vezes. Apesar de não confiar na função. Uma vez acidentalmente gravei duas versões da mesma mensagem de voz".

Um fator que colabora para o declínio da mensagem de voz é que ela representa uma vulnerabilidade da intimidade entre formas de comunicação das quais nos afastamos. Kate concordou: "Parece mais prático enviar uma mensagem de texto ou um e-mail. A única razão pela qual você envia uma mensagem de voz é para a pessoa ouvir o som da sua voz. E por isso parece algo presunçoso".

Como ela disse, existe também a questão, compreensível, da eficiência. Um aviso de ligação perdida no celular pode se tornar a própria solicitação para retornar o telefonema. Uma mensagem de texto "me chame" provavelmente será lida mais rapidamente do que a mensagem de voz e se o assunto é urgente múltiplas ligações perdidas podem destacar de modo mais vigoroso a urgência.

Saudações via mensagem de voz também se tornaram mais tediosas nos celulares. Para começar, a mensagem enviada lentamente pela provedora do celular é "sua chamada está sendo encaminhada para um sistema automático de mensagem de voz". E depois é preciso esperar até a leitura robótica do número de telefone ou da saudação personalizada do destinatário, que também inclui com frequência o número (informação que parece supérflua no caso da telefonia fixa, a menos que ele tenha sido fornecido no lugar do nome da pessoa, e mais ainda hoje em dia, uma vez que o número já vem indicado na tela do celular).

Finalmente, 138 anos após Alexander Graham Bell deixar a primeira mensagem em tempo real, o conceito ainda é totalmente estranho para você - como disse Patricia Napier-Fitzpatrick para alguns alunos - a pessoa pode elaborar instruções sobre como enviar mensagens hoje.

E como uma mensagem de voz é uma via de duas mãos, os muitos membros da Geração Y que ignoram suas caixas de entrada só dão a seus contemporâneos mais razão para não utilizarem o recurso. O tempo é o principal elemento de dissuasão, mas a diminuição das mensagens de voz torna algumas pessoas cautelosas em importar suas mensagens, como é o caso de Kate Greathead. "Fico aterrorizada de que possa ser uma emergência. Às vezes peço para outras pessoas ouvirem a mensagem para mim, de modo que elas é que podem receber a má notícia".

A convenção no sentido de evitar o envio de mensagens de voz também facilitou o aumento dos golpes nos celulares. Neste caso, uma pessoa chama de um número de telefone internacional que parece ser um código de área doméstico e desliga depois de um toque do telefone. Vítimas curiosas acostumadas a um mundo em que as mensagens de voz são mais raras retorna a chamada e depois vai descobrir na sua conta de telefone um valor exorbitante pelos minutos falados.

Embora qualquer pessoa possa cair na armadilha, os jovens da Geração Y (que com frequência não examinam ou pagam suas contas de telefone) são os mais suscetíveis - mesmo aqueles que descendem de especializados nas convenções da área da telefonia.

A filha de 22 anos de Patricia Napier-Fitzpatrick "nem mesmo conecta seu próprio correio de voz", disse ela. "O que ela faz é ver o número e retorna depois a ligação. Já disse a ela que não é assim que as coisas acontecem no mundo do trabalho".

Entretanto, pelo menos uma jovem de 22 anos deixa uma mensagem de voz para a sua mãe (e o namorado, mas ninguém mais), embora por razões menos profissionais. É o caso de Joy Kertes, do Wagner College, em Staten Sland. "Se não deixar uma mensagem de voz , com certeza ela não vai me responder". E por que não? "Ela vai pensar que liguei por engano", disse ela. 

Tradução:Terezinha Martino

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