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O narcisismo está aumentando, por isso você não é tão especial

- Atualizado: 20 Fevereiro 2016 | 07h 00

Se o nosso ego é obeso em razão de tanto amor próprio, a mídia social pode realmente nos fornecer os carboidratos emocionais vazios pelos quais ansiamos

Como tantos excessos dos anos 70, o culto do amor de si passou, se tornou exagerado, e hoje se projeta ameaçadoramente sobre a nossa cultura

Como tantos excessos dos anos 70, o culto do amor de si passou, se tornou exagerado, e hoje se projeta ameaçadoramente sobre a nossa cultura

Meu filho adolescente me informou recentemente de que existe um teste na internet para saber se a pessoa é narcisista. Seu amigo acabara de fazê-lo. "E como foi?" perguntei. "Ele falou que foi muito bem!" respondeu meu filho. "Tirou a nota mais alta!"

Quando eu era menino, ninguém fora do campo das doenças mentais falava em narcisismo; as pessoas se preocupavam mais com uma baixa autoestima, que, como se acreditava na época, está por trás de todas as dificuldades. Como tantos excessos dos anos 70, o culto do amor de si passou, se tornou exagerado, e hoje se projeta ameaçadoramente sobre a nossa cultura, como Godzilla sobre Tóquio.

Um estudo de 2010 publicado na revista Social Psychological and Personality Science concluiu que a porcentagem de estudantes dos primeiros anos de faculdade que apresentam traços de personalidade narcisista, com base em seus resultados sobre o Narcissistic Personality Inventory, um teste de diagnóstico amplamente usado, aumentou mais de 50% desde o início dos anos 80, para 30%. Em seu livro Narcissism Epidemic, os professores de psicologia Jean M. Twenge e W. Leith Campbell mostraram que, desde os anos 80, o narcisismo aumentou tão rapidamente quanto a obesidade.

Até o nosso ego está inflando. Ele contagiou o próprio debate político. Donald Trump? "Notavelmente narcisista", disse à revista Vanity Fair o especialista em psicologia do desenvolvimento, Howard Gardner. Não sei se Trump é ou não narcisista. Mas contesto a afirmação de que, se for, seja notável.

Este é um problema muito dispendioso. Embora os completos narcisistas muitas vezes falem em elevados níveis de satisfação pessoal, eles geram caos e sofrimento ao seu redor. Existem provas esmagadoras que vinculam o narcisismo a uma escassa honestidade e ao aumento da agressividade. Notável é o fato de que os narcisistas se esforçam em continuar comprometidos com parceiros românticos, em grande parte por se considerarem superiores.

O narcisista completo responderia: "E daí?" Mas o narcisismo não é uma simples característica, e sim mais um conjunto de sintomas progressivos (como o alcoolismo) do que um estado identificável (como a diabete). Milhões de americanos apresentam os sintomas, mas ainda têm uma consciência e anseiam por um aprimoramento moral. No mínimo, eles não querem ser pessoas horríveis. 

Para solucionar o problema, é preciso compreendê-lo. A filosofia nos ajuda a fazer isto, assim como a psicologia. O filósofo francês Jean-Jacques Rousseau, do século 18, escreveu sobre o "amor próprio", uma espécie de amor por nós mesmos baseado nas opiniões dos outros. Ele o considerava antinatural e mórbido, e acreditava que a comparação social arbitrária levava as pessoas a desperdiçarem a própria vida tentando parecer atraentes aos outros.

Pareceria uma descrição da nossa epidemia atual. Na realidade, no mito grego, Narciso se apaixona não por si mesmo, mas por seu reflexo. Na versão moderna, Narciso se apaixona pela própria imagem no Instagram, e acaba morrendo de fome, contando compulsivamente o número dos seus seguidores. 

Se o nosso ego é obeso em razão de tanto amor próprio, a mídia social pode realmente nos fornecer os carboidratos emocionais vazios pelos quais ansiamos. O Instagram e coisas semelhantes não geram o narcisista, mas estudos sugerem que atuam como aceleradores - uma plataforma quase ideal para facilitar o que os psicólogos chamam de "exibicionismo da self grandiosa". Indubitavelmente vocês viram isto nos outros, e talvez um pouco em vocês mesmos quando postaram uma selfie lisonjeira - e depois ficaram buscando umas 20 vezes os "curti".

Na versão moderna, Narciso se apaixona pela própria imagem no Instagram, e acaba morrendo de fome, contando compulsivamente o número dos seus seguidores

Na versão moderna, Narciso se apaixona pela própria imagem no Instagram, e acaba morrendo de fome, contando compulsivamente o número dos seus seguidores

Um amor próprio sadio que leva à verdadeira felicidade é o que Rousseau chamava de "amour de soi". Ele aumenta o bem-estar intrínseco, em vez de alimentar um frívolo anseio pela admiração dos outros. Cultivar o amour de soi requer que o indivíduo esteja totalmente vivo no momento, e não virtualmente vivo e preocupado com o que os outros pensam. Uma ligação calorosa com outra pessoa, o prazer do aprimoramento da beleza, sozinhos (não compartilhados no Facebook) ou uma oração de agradecimento pelo filho que dorme (esqueça o Twitter) poderiam ser consideradas manifestações do amour de soi.

Traduzir a sabedoria de Rousseau num plano abrangente de resgate da nossa cultura pode parecer grandioso. Mas poderá ajudar cada um de nós a abandonar as características do narcisista. Aqui está uma estratégia de aprimoramento individual que combina um amor de si sadio com um pequeno sacrifício (nesta temporada de Quaresma).

Em primeiro lugar, faça um teste com o Inventário da Personalidade Narcisista. Se você marcou muitos pontos como o amigo do meu filho, talvez esteja na hora de refletir um pouco. Pergunte para si mesmo: "Será que eu quero ser esta pessoa?"

Segundo, livre-se do fator emocional pernicioso que está alimentando toda obsessão doentia por si próprio. Faça uma lista de opiniões que deve ignorar - principalmente as dos bajuladores e dos críticos - e reveja a lista diariamente. Não desperdice um momento sequer tentando impressionar os outros, ao contrário, trate-os (e a você mesmo) com carinho, seja ele merecido ou não.

Terceiro, vá logo para uma mídia social. Mande mensagens para se comunicar, elogiar, e aprender - jamais para se promover. O que você tem a perder? Somente o seu eu distorcido, refletido.

Será fácil pôr em prática isto? É claro que não. Mas eu sei que você pode fazê-lo. Afinal, você é o melhor.

Arthur C. Brooks é o presidente do American Enterprise Institute

Tradução de Anna Capovilla

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