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Primeiras-damas são majestosas, maternais e patrióticas. Deveriam ser sexy também?

Robin Gvhan - The Washington Post

09 Julho 2014 | 20h 38

Esta pergunta está inserida no subtexto de um novo perfil da primeira-dama do México, Angelica Rivera de Peña

Sexo vende tudo, desde carros até iogurte, mas o maior teste é se ele pode vender a ideia de uma primeira-dama como uma mulher qualquer - que não está obrigada a atender expectativas ultrapassadas ou exageradas sobre as tradições culturais que ela deve representar, a mensagem que deve enviar do seu púlpito ou quanto dela mesma está autorizada a expor. Esta pergunta está inserida no subtexto de um novo perfil da primeira-dama do México, Angelica Rivera de Peña.

Ela apareceu na capa da revista Marie Claire de julho - edição para o México e América Latina - audaciosamente sexy, ao lado de sua filha Sofia Castro, também muito atraente.

Mãe e filha aparecem vestidas com modelos complementares - blusas brancas com babados e dois diferentes estilos de jaqueta tuxedo. A primeira dama está usando leggings e sua filha uma saia extremamente curta. Nos dois casos a estética está toda concentrada nas pernas - longas, muito longas. Nas páginas internas da revista, Rivera foi fotografada vestindo um trenchcoat de couro extravagante, um vestido de noite sem alças com um decote muito profundo nas costas e uma saia fluida com abertura que deixa à mostra suas pernas.

Do ponto de vista dos Estados Unidos, onde algumas pessoas ainda desaprovam totalmente braços nus na Ala Leste, os modelos usados pela primeira-dama mexicana são chocantes. Não são trajes que primeiras-damas devem usar - certamente não uma primeira-dama que está posando para fotos oficiais na residência presidencial.

O estilo de Angelica Rivera é surpreendente, mas as poses é que são mais provocativas. É a linguagem do corpo que é sexy, não o vestido ou o macacão colado no corpo. Na capa da revista, sua postura fica particularmente evidenciada. Ela assume uma pose casual de pernas abertas com a mão no quadril e o olhar dirigido diretamente para o leitor. Ao lado dela, Sofia Castro com a cabeça inclinada para o lado dirige ao leitor um olhar de soslaio arrogante e confiante. No corpo da revista, a primeira-dama é fotografada lançando um olhar sedutor por cima do ombro, de pé numa escadaria elegante, alisando suas longas pernas ao mesmo tempo envolvendo o leitor com seu olhar.

Em comparação, quando as primeiras damas dos Estados Unidos são fotografas para revistas, as imagens são majestosas, maternais e ocasionalmente até mais profissionais. O sex-appeal não faz parte do pacote.

Manuel Balce Ceneta/AP
A primeira dama dos Estados Unidos, Michelle Obama, aparece mais discreta nas fotos de capas de revistas

E embora as tradições sejam diferentes em cada país, as fotografias da primeira-dama mexicana são inusitadas - aspecto que a editora chefe da Marie Claire Ariadne Grant orgulhosamente proclama na nota do editor.

O tema da reportagem de 22 páginas é uma nova definição do "Girl Power" (Poder das Meninas). E Angelica Rivera afirma que o poder baseia-se tanto na independência pessoal como na irmandade feminina. "Sempre me perguntei porque sou considerada primeira-dama quando, na verdade, todas as mulheres deste país devem ser consideradas primeiras-damas", disse ela. "É um título que foi criado há muito tempo e por isso eu digo que todas as mulheres são importantes e todas as mulheres mexicanas são uma 'primeira-dama'".

O tema do poder é um território delicado para uma revista de moda. Essas revistas, afinal, são movidas por uma indústria que trata descuidadamente da questão da autonomia feminina, criando regularmente modelos e diretrizes culturais que silenciosamente orientam o pensamento do público sobre o que significa ser uma mulher moderna. O ideal feminino que as revistas de moda retratam - em detalhes perfeitos e retocados - é algo impossível de copiar. E a ubiquidade dessas imagens sem defeito podem ser desalentadoras e opressivas.

Mas pelo menos num ponto as revistas de moda têm um argumento forte. Existe um certo grau de poder que é ganho deixando à mostra seus predicados físicos. Nada de se inquietar com eles ou mergulhar na dúvida, mas reconhecê-los e celebrá-los - com um guarda-roupa hippie chique que agrade, batom, saltos altos e um vestido que destaca o corpo, com curvas perigosas e linhas perfeitas. Moda é uma maneira de anunciar a presença de uma pessoa em termos individuais.

Mas para as mulheres em evidência, esse prazer muito pessoal pode tornar-se uma tortura. Seu corpo torna-se propriedade comum. Ele é julgado - criticado e cobiçado. Em Hollywood, por exemplo, o corpo de uma mulher pode tornar-se um grande peso - algo que tem de ser mantido dentro de parâmetros brutais. No caso das estrelas, há um esforço constante combinando exercícios físicos estafantes e abnegação. O físico resultante disto é tanto um triunfo como resignação.

Para uma mulher americana que assume o papel de primeira-dama, o corpo deve ser deixado em segundo plano. Não pode ficar muito exposto. Nem abertamente sexy. Beleza é algo aceitável, até esperado. Mas o sex-appeal, a sexualidade, são proibidos. Nem se menciona. O que seria óbvio, ou pelo menos visível, antes de ela assumir a nova função, tende a evaporar dentro dos limites impostos à sua vida como primeira-dama.

Outros países são mais indulgentes. Na França, por exemplo, a mídia referia-se ao decote sexy da ex-primeira dama Valerie Trierweiler com aprovação, não censura. Mas Angelica Rivera parece ter dado um ou dois passos mais além de mostrar o colo. Seu sex-appeal é holístico: estudiosamente planejado, estilizado, profissionalmente iluminado e retocado. E o resultado é um portfólio de imagens em que ela parece excepcionalmente plena de energia - inteiramente visível.

Na entrevista para a Marie Claire, ela é questionada sobre o seu estilo e - como era de esperar - fala da sua devoção pelos designers mexicanos. "Tive a honra de representar as mulheres mexicanas quando acompanhei meu marido a outros países e usei modelos de estilistas mexicanos que alcançaram reconhecimento internacional", disse ela. "Estou convencida que nossos estilistas são os melhores entre os melhores e até agora as únicas marcas que compro são mexicanas, porque conseguem interpretar o estilo da mulher mexicana atual, que é a mulher que quer parecer bem, gosta de se vestir, é culta, trabalha e cuida dos filhos e da família.

Como primeira dama, viajando com o marido, seu corpo transmite uma mensagem de orgulho nacional, exigência econômica e correção política. É o que ocorre com as primeiras damas. Seu corpo é um cartaz patriótico em três dimensões. E de fato, Angelica Rivera usa modelos criados pelos estilistas mexicanos Macarios Jimenez e Benito Santos.

Mas para essa reportagem especial, ela foi fotografada usando marcas mais internacionais: Dolce & Gabbana, Tom Ford, Hermès, Tory Burch e Louis Vuitton entre outros. A marca mexicana mais famosa é Alejandro Carlin. De acordo com um porta-voz da revista, os editores ofereceram o guarda-roupa para as fotos, mas ela decidiu o que vestir ou não. E nas suas escolhas politicamente incorretas, ela forçou os limites impostos pela condição de primeira dama. 

Angelica procurou satisfazer seu gosto pessoal em termos de moda. Liberou seu sex-appeal. E foi apenas uma mulher.

Talvez outras primeiras damas encontrem uma maneira de fazer o mesmo.

Tradução de Terezinha Martino