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Quando as mulheres vão deixar de tentar parecer perfeitas?

- Atualizado: 06 Fevereiro 2016 | 06h 00

Você pode colocar um ponto final, no sentido de que não irá mais desempenhar o que às vezes parece ser a maior obrigação na vida de uma mulher - ser bela para os homens

'Bela e sexy em qualquer idade'. É preciso isso mesmo?

'Bela e sexy em qualquer idade'. É preciso isso mesmo?

Como durante toda a minha vida eu me dediquei a revistas de moda e tabloides, li dezenas de artigos e reportagens sobre o tema "bela e sexy em qualquer idade". Você provavelmente também viu reportagens mostrando um grupo de mulheres adoráveis cujo rosto, roupas, exercícios rotineiros e cuidados com a pele são apresentados de modo a estimular as pessoas a seguir o exemplo. Há anos as leitores arregalam os olhos diante de estrelas e atrizes ou cantoras nos seus 20, 30 ou 40 anos e mesmo entrando bravamente na faixa dos 60.

Depois - nada. Embora a mais recente edição "Age" da Vogue tenha aumentado a faixa de idade, incluindo uma corredora com 90 anos, e a edição "A Mais Bela do Mundo" da People tenha aberto espaço para Jane Fonda nos seus 75 anos em 2013, essas são exceções. É como se, em se tratando de beleza e sensualidade, as mulheres mais velhas simplesmente desapareceram. Ou talvez tenham passado dos 60 e marchado, no estilo do filme Colheita Maldita, na direção das prateleiras da Nordstrom, para jamais serem vistas novamente. 

De um lado, trata-se de discriminação flagrante. Na festa do Globo de Ouro passaram pelo tapete vermelho atrizes como Lily Tomlin e Maggie Smith, Helen Mirren e Jane Fonda, provando que uma mulher pode ser fascinante e elegante aos 70 anos ou mais.

De outro, essas revistas sempre me deram - e acho que no caso de outras leitoras - pouca esperança. 

Mas você pode colocar um ponto final, no sentido de que não irá mais desempenhar o que às vezes parece ser a maior obrigação na vida de uma mulher - ser bela para os homens. Você vai jogar no lixo as cintas modeladoras e a sua balança para pesar alimentos, e desfrutar das suas realizações, dos seus netos, do seu tempo livre.

Infelizmente, fatos recentes sugerem que as coisas mudaram. Pense no alvoroço em torno de Carrie Fisher, que reprisou seu papel como a princesa Leia Organa em "Star Wars - O despertar da força", quase 40 anos depois de sua estreia no primeiro filme da série, quando tinha 19 anos.

Nas décadas que se seguiram após o primeiro filme, a atriz e sua personagem enfrentaram problemas mentais e de dependência de drogas, no caso de Carrie, e uma guerra intergaláctica no caso da princesa Leia. 

Mas no mais recente episódio os cineastas determinaram que Leia não só deveria ser inteligente e poderosa, mas também tinha de ser esbelta. "Eles não querem me contratar inteira - somente três quartos", disse a atriz.

Ela acabou emagrecendo para o papel. Mas alguns fãs não gostaram. Discussões online sobre a sua aparência se propagaram na mídia social. Quando a atriz retrucou, escrevendo no Twitter "por favor, parem de discutir se envelheci bem, ou não. Infelizmente isso fere meus sentimentos". Kyle Smith, escrevendo no The New York Post, respondeu rapidamente: "Carrie Fisher deveria agradecer ao estúdio por fazer com que ela perdesse peso como deveriam tê-la obrigado a abandonar a heroína ou o cigarro", escreveu ele, equiparando "delgado" e "saudável". Não importa o fato de que muitos medicamentos usados para tratar o transtorno bipolar provocam ganho de peso.

Mas o desdém não parou ai. "Se ela não queria que o público falasse a seu respeito, deveria ter passado os últimos 40 anos dando aula no jardim de infância", escreveu Kyle Smith. O que me levou a perguntar se ele um dia visitou algum playground. A verdade, como qualquer pessoa pode confirmar, é que não há nenhum lugar em que a aparência de uma mulher não seja importante. 

Viver uma vida privada tranquila? Diga isto às mulheres do London Tube, que disseram ter recebido cartões de pessoas que diziam pertencer a um grupo chamado "Overweight Haters Ltda", com a frase: "Na verdade não é glandular, é a sua gulodice...você é um ser humano gordo e feio".

Se isto já não fosse deprimente o bastante, uma voz inesperada juntou-se ao coro. Oprah Winfrey está em toda a parte, na TV, no telefone, no Instagram, insistindo para as mulheres se juntarem a ela em mais uma jornada de emagrecimento com os Vigilantes do Peso. "Dentro de cada mulher gorda há uma mulher que ela sabe que pode ser", diz Oprah no anúncio de um minuto para a companhia. "Muitas vezes você se olha no espelho e nem mesmo se reconhece porque está perdida, enterrada, no peso que carrega".

Sério? Oprah Winfrey, com toda a sua influência, todas as suas realizações, a escola que criou e o dinheiro que ganhou, ainda se sente perdida, enterrada, como se não estivesse na sua mais plena e autêntica forma? Oprah, entre todos os outros, não deveria estar aberta à possibilidade de já ser a mulher que queria ser? E quando você tem 61 anos ainda deve se inquietar se o seu corpo ainda está na melhor forma? Não consegue apenas folhear seu álbum do ginásio, comer da maneira que seu cardiologista aconselha e parar por aí?

 'Em 2016 olhemos para além do superficial e vamos dar mais de nós mesmos, não menos'

 'Em 2016 olhemos para além do superficial e vamos dar mais de nós mesmos, não menos'

Talvez a mensagem de Oprah seja realmente sincera ou talvez somente um argumento de venda engenhoso. 

Em outubro, Oprah investiu US$ 43,2 milhões na compra de uma participação de 10% no Vigilantes do Peso. Ela fará parte da diretoria da companhia, matriculou-se no programa e vem alardeando que perdeu quase sete quilos. Mas não fala muito sobre o lucro de mais de US$ 70 milhões contabilizado depois do anúncio do seu ingresso na empresa.

Se ela continuar a perder peso, será um caso à parte, estatisticamente falando. Na dieta do Vigilantes do Peso, como ocorre com qualquer regime, "você perde peso a curto prazo e o recupera no longo prazo", diz Traci Mann, professora de psicologia na Universidade de Minnesota e diretora do seu laboratório de saúde e alimentação. "Seu corpo sente a privação e lança mão de recursos para assegurar que você não morra de fome, que você coma. E são recursos efetivos - você pensa mais em comida, tem mais vontade de comer, a comida parece mais saborosa, e assim você come, e volta a engordar.

O modelo do Vigilantes do Peso depende dos clientes que sempre regressam, afirma a professora. "Realmente essa atitude de Oprah me deprime".

Embora seus espectadores há muito tempo estejam atentos aos altos e baixos de Oprah - quem esqueceu o vagão cheio de gordura que ela trouxe para o palco em 1998 após uma dieta de líquidos que a deixou 30 quilos mais magra? - mais recentemente ela tem falado mais em autoaceitação e não insistido tanto em emagrecer.

Mas só porque ela aderiu à tendência do novo ano/novo corpo não significa que você tem de agir da mesma maneira. Todo ano as mulheres são incentivadas a distribuir sua vida em aulas de 55 minutos e refeições de 100 gramas de peito de frango, regime que certamente deve funcionar desta vez, mesmo que nenhum tenha dado certo em outras ocasiões. Cirurgiões plásticos fazem anúncios de substâncias injetáveis, contorno do corpo e restauração da pele a laser para evitar o inevitável.

Mas e se, em vez de investir em regimes pagos e peelings, doarmos nossos dólares para instituições de caridade e dedicarmos nosso tempo colaborando com bancos de alimentos ou a escola primária. E que tal pensarmos em acrescentar outras coisas à nossa vida: novos alimentos, novas habilidades, novas aulas, novas rotas de caminhada?

"Perca peso e ganhe muito mais", é o convite do Vigilantes do Peso em seu website. Se está procurando um slogan de ano novo, eis um outro: "em 2016 olhemos para além do superficial e vamos dar mais de nós mesmos, não menos".

 

Jennifer Weiner é autora do livro "Who Do You Love"

Tradução de Terezinha Martino 

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