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Saltimbancos modernos

- Atualizado: 22 Junho 2009 | 11h 19

Em um misto de performance e intervenção urbana, há quem leve arte para as ruas de São Paulo

Não se surpreenda, por exemplo, se estiver andando pelas ruas da capital e se deparar com um grupo que recita poemas, usando megafones e com sacos plásticos pretos na cabeça. Essa é a marca registrada do Poesia Maloqueirista (www.poesiamaloqueirista.blogspot.com), criado há cinco anos, e composto por cerca de 15 pessoas, entre poetas, músicos e designers. A produtora de cenários, ilustradora e poetisa paulistana Aline Binns, de 28 anos, é uma das integrantes. Ela conta que começaram a recitar poemas pelos bares de Paraty, onde se encontraram para uma das edições da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP).

Desde então, ficaram amigos, começaram a sair juntos e passaram a repetir a experiência em São Paulo, semanalmente. Reúnem-se em locais como a Praça Roosevelt, os arredores do metrô Tucuruvi ou o bairro Vila Madalena. Além de livros artesanais de poesia, o grupo produz, há quatro anos, a revista bimestral Não Funciona, que agora tem o apoio do Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais (Vai), da Prefeitura de São Paulo. "As pessoas ficam surpresas e, quando se identificam com um poema, querem saber a autoria, como funciona o grupo, quando e onde podem nos ver novamente", conta Aline.

Outro integrante do Poesia Maloqueirista, o poeta, ator e produtor cultural Caco Pontes, resume: "A rua é um dos espaços mais livres e democráticos. A grande vantagem é poder dialogar diretamente com o povo, o mesmo que vê novela, noticiário, jogo de futebol, propaganda. Ou, simplesmente, as pessoas que moram nas vias públicas. Tem de tudo, para todos os gostos."

O ilustrador e poeta Glaucus Nóia, de 27 anos, também comanda um grupo que faz performances nas ruas, o Aum (Arte Urbana Mambembe), que já tem sete anos. Chama diferentes artistas a cada apresentação, propondo uma mistura de linguagens, com dança, poesia e DJs que tocam música experimental. Os locais escolhidos são antesalas de teatros, portas de bibliotecas e as proximidades de caixas eletrônicos de bancos. A poesia costuma fazer críticas sociais ou questionamentos existenciais. "As pessoas ficam mexidas, é um tipo de arte incômoda."

TEATRO AO PÉ DO OUVIDO

A Companhia do Feijão apresenta desde 2004 o espetáculo teatral Reis de Fumaça, em locais como o Parque da Luz e as praças da República e da Sé - já fizeram cerca de 150 apresentações na capital paulista, com o suporte da Lei de Fomento e Incentivo à Cultura. No momento, o grupo tem apresentado o espetáculo em outras cidades do Brasil, e em São Paulo, sob encomenda.

Durante uma parte da peça, os atores espalham-se e cada um conta uma história para uma pessoa da plateia, ao pé do ouvido. "Há os que ficam ouvindo, sem perceber que isso faz parte de um espetáculo", fala um dos diretores da companhia, o dramaturgo Pedro Pires. "Na rua, as pessoas não têm compromisso: se gostam do espetáculo, permanecem; senão, vão embora."

A rua é o palco também da Cia. São Jorge de Variedades, que é dirigida por Georgette Fadel, e existe desde 1998. "Queríamos conviver com o público não pagante", resume a atriz da companhia, Mariana Senne. O espetáculo Santo Guerreiro e o Herói Desajustado ficou oito meses "em cartaz" na Praça da República. Mariana conta:

- Houve uma apresentação em que uma moradora de rua ficou bem próxima do elenco, dando palpites sobre a peça. No final, quando Dom Quixote pergunta onde está Dulcineia, ela saiu debaixo de seu cobertor, foi até o centro da roda, e respondeu bem alto: "Estou aqui".

A Cia. São Jorge de Variedades apresenta agora o espetáculo Quem não sabe mais quem é, o que é e onde está, precisa se mexer. Com ingresso pago, a peça começa na porta da sede do grupo, na Barra Funda, e segue pelas ruas do bairro. Depois, os espectadores voltam ao teatro e, finalmente, a peça acaba num boteco.