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Tratamento silencioso diz muito sobre um relacionamento

Sharon Jayson - USA Today

17 Agosto 2014 | 06h 00

Parceiros que se fecham emocionalmente por causa das cobranças do outro causam diversos danos

Se você estiver sofrendo em silêncio – ou por causa dele – seu relacionamento pode estar mais ameaçado do que você imagina, segundo uma nova pesquisa segundo a qual as interações que incluem o “tratamento silencioso” podem estar condenadas à ruína.

Apesar de os pesquisadores dizerem que a indiferença é a maneira mais comum de as pessoas lidarem com os conflitos maritais, uma análise de 74 estudos, baseada em mais de 14 mil participantes, mostra que quando um parceiro se retira em silêncio ou se fecha emocionalmente por causa das cobranças percebidas do outro, os danos são tanto emocionais como físicos.

“Quanto mais este padrão emerge no relacionamento, maiores as chances de um ou ambos os parceiros experimentarem níveis mais altos de ansiedade ou poderem usar formas mais agressivas de comportamento”, diz Paul Schrodt, um professor de estudos da comunicação na Texas Christian University em Fort Worth, que liderou estudo que saiu recentemente na publicação Communication Monographs.

“Cada parceiro vê o comportamento do outro como o começo de uma briga”, diz ele. “Se você lhe pergunta por que ele é tão retraído em relação à mulher, é porque ´ela está constantemente me azucrinando e constantemente fazendo um milhão de perguntas`. Se você pergunta a ela ´por que ela está fazendo cobranças dele, é porque ´ele não me conta nada. Não sinto que ele se importe com o nosso relacionamento`. Cada parceiro não consegue ver como seu próprio comportamento está contribuindo para o padrão.”

Em boa parte da pesquisa, diz Shrodt, o homem tende a ser mais silencioso; mas o psicólogo Les Parrott, de Seattle, diz que não viu uma grande diferença entre gêneros,

“Vejo muitos homens ficando exigentes”, diz ele.

Para Shrodt, é o padrão que é muito danoso porque indica uma série de sinais de desgaste do relacionamento. A pesquisa, que se estendeu de 1987 a 2011, não foi especificamente sobre o tratamento silencioso, mas este faz parte de um padrão mais amplo que se estende não só a relacionamentos românticos, mas a estilos de comportamento parental também, que também fizeram parte da pesquisa, diz ele.

Parrott, coautor de The Good Fight: How Conflict Can Bring you Closer (A boa briga: como o conflito pode aproximar o casal, em tradução livre), um livro publicado em abril, diz que o tratamento silencioso é um padrão muito difícil de romper porque é muito entranhado.

“Aprendemos esta estratégia muito cedo – desde a primeira infância –, a de nos calarmos diante de outro como maneira de punição”, diz Parrott. “Muitos de nós são propensos a emburrar ou fazer beicinho, e isso é uma primeira forma de dar a alguém o tratamento silencioso.”

Parrott, que é professor de psicologia na Seattle Pacific University, diz que não vem nada de bom do tratamento silencioso porque ele é “manipulador, desrespeitoso e contraproducente”. 

A análise de Shrodt revela que casais que usam tais comportamentos de conflito experimentam uma satisfação mais baixa no relacionamento, menos intimidade e pior comunicação, que também é associada ao divórcio. E, diz ele, alguns estudos revelaram que os efeitos não são apenas emocionais, mas psicológicos, como disfunção urinária, intestinal ou erétil.

“Os parceiros ficam presos neste padrão, em grande parte porque cada um vê o outro como a causa”, diz Shrodt. “Para cada parceiro, o outro é o problema.”

Parrott e Shrodt concordam em que ter consciência do padrão pode ajudar a resolovê-lo.

“O conflito é inevitável, mas a maneira como se lida com ele pode fazer a diferença”, diz Parrott.

Como romper o padrão do tratamento silencioso:

- Ter consciência do que está realmente se passando. A pessoa que faz cobranças sente-se abandonada; a pessoa silenciosa está se protegendo. Cada uma precisa perguntar: “Por que estou me comportando desta maneira? Como meu comportamento faz meu pareceiro se sentir?”

- Evitar o assassinato de caráter. Será mais danoso rotular seu cônjuge como “egoísta” ou “rude”.

- Usar a palavra “eu”, porque quanto mais usar “você”, mais tempo durará a disputa. Você pode dizer algo como, “É assim que eu me sinto quando você deixa de falar comigo”.

- Concordar mutuamente em dar um tempo. Quando o ciclo surge, ambos os parceiros precisam esfriar as cabeças e aquecer os corações antes de se atracar. E algumas pessoas simplesmente precisam de um pouco de tempo para pensar antes de falar.

- Pedir genuinamente desculpa assim que puder. 

Tradução de Celso Paciornik