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Cientistas conseguem acelerar cicatrização de ferimentos

Alexandre Gonçalves - O Estadao de S.Paulo

05 Setembro 2009 | 00h 00

Estudo de brasileiros feito em ratos reduziu de 35 para 7 dias o período de tratamento

Pesquisadores brasileiros conseguiram reduzir de 35 dias para uma semana o tempo de cicatrização de feridas em ratos. O método emprega larvas de moscas-varejeiras como pequenas e minuciosas enfermeiras para limpar a região do ferimento (mais informações nesta página).

Algumas cobaias que não receberam essa terapia foram sacrificadas para limitar o processo de agonia decorrente da infecção. Agora, os primeiros testes em humanos podem começar no próximo ano, diz Maria José Trevizani Nitsche, da Faculdade de Medicina de Botucatu, ligada à Universidade Estadual Paulista (Unesp). A enfermeira estudou o método de limpeza de ferimentos no doutorado.

A abordagem é nova no Brasil, mas utilizada em outros países. Desde 2004, o FDA, órgão americano de vigilância sanitária, autoriza a prática. Há empresas, como a Monarch Labs nos Estados Unidos e a ZooBiotic Ltd. no Reino Unido, que produzem kits com larvas que podem ser adquiridos mediante prescrição médica. A Inglaterra também reconhece a técnica desde 2004.

ADAPTAÇÃO

Apesar de estabelecido em outros países, o método deve ser "nacionalizado", explica Wesley Augusto Conde Godoy, biólogo da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), orientador de Maria José na pesquisa. "As empresas americanas e inglesas utilizam moscas da espécie Lucilia sericata", aponta Godoy. "Esta espécie existe no País, mas não em todos os lugares." Fatores como altitude e temperatura influenciam sua distribuição.

Os pesquisadores procuraram espécies mais frequentes e adaptadas ao clima nacional. Elegeram duas: a Chrysomya megacephala e a C. putoria.

Nenhuma delas é nativa do Brasil. A primeira veio da África e a segunda, da Ásia. Mas adaptaram-se muito bem e podem ser encontradas em praticamente todas as regiões.

A bióloga Patrícia Jaqueline Thyssen, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que também orientou o trabalho, acrescenta ainda outra vantagem das duas espécies. Para serem usadas na terapia, as larvas devem atacar prioritariamente o tecido morto do ferimento, deixando intacto o tecido sadio.

Em 2006, Patrícia publicou um relato no Arquivo Brasileiro de Medicina Veterinária e Zootecnia que descrevia como larvas de um inseto do gênero Lucilia - o mesmo utilizado no hemisfério norte - danificaram tecido sadio em um coelho. "Não há relatos semelhantes sobre as espécies que citamos na nossa pesquisa", argumenta a bióloga. "São bastante seletivas."

As larvas eliminam do ferimento todo o tecido morto que serviria de alimento para colônias de bactérias. Naturalmente, para que não se tornem elas mesmas vetores de infecções, devem ser esterilizadas previamente. No protocolo brasileiro, usa-se água sanitária para desinfetar os ovos das moscas, criadas em um laboratório com condições higiênicas rigidamente controladas.

Maria José sabe que algumas pessoas torceriam o nariz antes de usar a nova terapia. Mas acredita que pacientes com ferimentos que demoram para cicatrizar - comuns em diabéticos -, com ulcerações crônicas ou queimaduras graves podem ser beneficiados com a nova técnica.

"Os métodos atuais para retirar o tecido morto são ineficientes ou caros", argumenta a pesquisadora. "Nossos resultados preliminares apontam que a terapia larval é uma alternativa barata e muito eficaz."

A enfermeira procurou o biólogo pois desejava realizar o doutorado em algum tema relacionado à biologia aplicada. O pesquisador, especializado em ecologia de insetos, lembrou de um programa da National Geographic que assistiu sobre terapia larval. "Propus o assunto e ela se interessou", comenta Godoy. "Hoje vejo que, se ela não fosse enfermeira, dificilmente essa pesquisa teria uma aplicação prática: precisávamos de alguém da área de saúde para realizá-la."

PESQUISAS PUBLICADAS

Não há risco de que as larvas se reproduzam no ferimento. Elas permanecem poucas horas no local para realizar a limpeza e só atingem a maturidade sexual quando se tornam insetos adultos (ou seja, moscas).

Um estudo publicado na revista Diabetes Care, em 2003, comparou o uso de terapia convencional - normalmente hidrogéis - e terapia larval em 20 feridas de difícil cicatrização. Concluiu que o método alternativo era "mais efetivo e eficiente no debridamento de feridas não cicatrizantes nos pés e nas pernas".

Em março, o British Medical Journal também publicou um estudo da Universidade de York que comparava os custos e a efetividade das duas abordagens em 267 pacientes. O trabalho concluiu que as larvas são tão eficazes quanto os hidrogéis para limpar as feridas, embora realizem o serviço em um tempo menor.

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