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Cartão vermelho às chuteiras pretas

Sam Borden - The New York Times

10 Junho 2014 | 11h 40

A partir de quinta-feira, até os fãs menos atentos devem reparar em algo diferente durante a Copa do Mundo, ao observarem os pés dos jogadores disputando o controle da bola

Reuters
Ao longo dos anos, o futebol passou por algumas modas memoráveis

Ao longo dos anos, o futebol passou por algumas modas memoráveis, ainda que em muitos casos melhor seria esquecê-las. Tivemos a alarmante popularidade dos calções curtos; a estranha fixação por camisas bufantes; a fase das meias de abelha (não confundir com a loucura das meias para esquentar as pernas). Durante tudo isso, entretanto, uma verdade se manteve imutável: as chuteiras eram pretas.

É verdade que havia listras brancas aqui e ali, de vez em quando. Talvez um logotipo. Mas, a partir de quinta-feira, até os fãs menos atentos devem reparar em algo diferente durante a Copa do Mundo, ao observarem os pés dos jogadores disputando o controle da bola. Hoje em dia, os únicos que usam chuteiras pretas são os juízes. Todos os demais parecem saídos de uma luta contra um arco-íris.

"As cores nem me surpreendem mais", disse Luis Suárez, astro do ataque do Liverpool, que deve liderar a seleção uruguaia no Brasil. "Já vi chuteiras cor de rosa, verdes, já vi de tudo. Quando eu era criança, não havia dúvida, os calçados eram pretos." Ele riu. "Acho que hoje todos sabem que isso é coisa do passado."

Depois da Copa do Mundo de 2010, quando a maioria dos jogadores se ateve a modelos básicos, os campeonatos europeus de 2012 trouxeram uma amostra da expansão da gama de cores usada no esporte. Mas as principais fabricantes de chuteiras planejaram um verdadeiro desfile de pigmentos para mostrar no Brasil. Os nomes lembram sabores de iogurte: roxo metálico, violeta prisma, verde terra, gosma solar (parece um pouco limonada). Os novos calçados da Nike, que serão usados por astros como o português Cristiano Ronaldo, combinam rosas e amarelos chocantes, além de um tipo de suporte semelhante a uma meia que, em tese, ajuda a dar estabilidade ao tornozelo.

Os mais novos modelos da Adidas, que estarão nos pés do argentino Lionel Messi, entre outros craques, são um tipo de calçado fluorescente reptílico que emprega azuis e laranjas dos mais chamativos. A Puma parece optar por um modelo unissex. Em cada par, um dos pés é rosa e o outro, azul.

"Pessoalmente, sempre gostei dos modelos pretos - tinham uma aparência sóbria", disse Josy Altidore, ala da seleção americana patrocinado pela Adidas. "Mas todos temos consciência da importância do marketing e, francamente, uso qualquer modelo que mandarem para mim."

Trata-se de uma reação comum. Por mais que alguns jogadores apreciem a oportunidade de deixar o camaleão dentro de si se expressar livremente, a moda é sempre um negócio, e o efeito desta lógica chegou ao futebol. As vendas de calçados coloridos em geral aumentaram acentuadamente entre os jogadores amadores e das categorias juvenis nos anos mais recentes, e as fabricantes de sapatos estão se adaptando às mudanças no gosto. De acordo com um porta-voz da Adidas, mais de 80% das chuteiras oferecidas pela empresa durante a temporada de primavera/verão este ano foram "coloridas ou acentuadas por fortes cores chamativas".

"É um desfile de moda na Copa do Mundo", disse Antonio Zea, diretor de inovação em futebol da Adidas. "Os meninos querem ser Messi. Querem ser Beckham. Entendemos esse desejo. Sabemos o que significa para este público ver um astro usando um de nossos modelos."

Denis Dekovic, diretor de design de futebol da Nike, disse que embora as relações com jogadores profissionais sejam importantes. "Nosso foco está nos jogadores mais jovens. Queremos o futuro".

É difícil determinar quando exatamente teve início a revolução das chuteiras coloridas. Zea disse que a Adidas costuma ter como referência 1996, quando o boliviano Marco Etcheverry usou nos jogos uma versão vermelha da conhecida chuteira modelo Predator.

Dekovic destacou que, até o final dos anos 1990, os criadores de sapatos enfrentavam limites na gama de cores disponível por causa dos materiais que podiam ser usados. O couro de canguru, usado nas chuteiras da época, era difícil de tingir sem perder com isso a integridade física, por isso, "os modelos tinham que ser pretos ou brancos, talvez com um pouco de vermelho", explicou ele.

Em 1998, quando Ronaldo usou a nova chuteira Mercurial, da Nike, tudo mudou para a empresa: as cores eram azul e prata, e o material era sintético. "Sempre houve o desejo de quebrar as regras", disse Dekovic. "Hoje em dia esse desejo só aumentou. Os jogadores de hoje têm personalidade forte, e a única maneira de mostrarem sua personalidade é por meio das chuteiras, pois o restante é parte do uniforme."

Esta ideia de individualidade se tornou a narrativa preferida e menos cínica para a nova gama de cores. (Afinal, "dinheiro, dinheiro, dinheiro" é uma inspiração fraca para os comerciais.) Num certo nível, o discurso é verdadeiro: a variedade de tonalidades permite que os jogadores façam escolhas. Zagueiros raçudos costumam preferir cores mais sólidas e tradicionais, enquanto os atacantes e armadores das jogadas optam pelas combinações mais ousadas.

"Gosto bastante de chuteiras vermelhas", disse o volante Jack Wilshere, da seleção inglesa. O uruguaio Suárez disse que as cores chamativas fazem com que se sinta "mais elétrico".

Alexi Lalas, ex-zagueiro da seleção americana cujo cavanhaque e cabelo ruivo chamaram muita atenção numa era mais discreta, lembrou que, em 1994, procurou o técnico americano Bora Milutinovic na véspera de um jogo para perguntar se poderia usar chuteiras brancas.

"A partida seria em Seattle e o campo era de grama sintética, por isso, quis usar tênis brancos de squash em vez de chuteiras", disse Lalas. "Ele olhou para os sapatos, franziu o cenho e disse, 'É melhor você jogar bem usando isso'."

Lalas marcou um gol naquele dia, mas, mesmo assim, ouviu comentários dos outros jogadores. De acordo com ele, hoje em dia, o modelo "seria no estilo hipster, todo branco. Como as calças boca de sino, uma moda que sempre acaba voltando".

Nem todos os jogadores gostam das novas cores. Zlatan Ibrahimovic, o astro sueco cuja seleção não conseguiu se classificar para a Copa do Mundo deste ano, disse acreditar que as cores chamativas prejudicam os atacantes, pois os bandeirinhas têm mais facilidade para ver se os jogadores estão em posição de impedimento. "Com uma chuteira preta, podemos abusar mais da margem de erro", disse ele.

E Daniel de Rossi, que há muito atua como volante pela Itália, disse gostar de lembrar da época em que a vida era mais simples - e as chuteiras também. "Adoro ver as fotos de quando era criança, usando chuteiras pretas", disse ele. "Hoje em dia as cores chegam a ser exageradas; me pergunto até onde os designers querem chegar."

Ele suspirou. "Sempre que lançam uma nova caixa, penso. 'O que virá a seguir, uma chuteira alada?'