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Depois do metrossexual, conheça o spornsexual

O homem está sofrendo uma crise de identidade. Com os gays em ascensão com suas modas e corpos esculturais, ser masculino hoje é um grande desafio

Jorge Grimberg

Jorge Grimberg
@jgrimberg

Jorge Grimberg é especialista em moda e cultura. Sua empresa Grimberg Creative Studio desenvolve conteúdo, pesquisa de tendências e estratégia para alguns dos maiores grupos de moda do Brasil.

Divulgação
O jogador Cristiano Ronaldo exibe os dotes em campanha da marca de relógios Time Force

Há 10 anos, um jornalista inglês conseguiu definir essa 'crise' com uma nova definição: metrosexual. David Beckham, com a sua virilidade e o seu estilo fashion impecável, foi o ícone absoluto do movimento. O jogador mostrou que, sim, o homem pode usar cremes, cabelo moicano e roupas de designers, e ser muito, mas muito masculino, mesmo usando bolsa Louis Vuitton. 

Na era da Copa de 2014, o homem está obcecado com outras coisas, muito além dos creminhos e topetes de Beckham. A onda agora são tanquinhos e tatuagens. É um fenômeno. Para conquistar seguidores no Instagram, basta postar muitas selfies com os gominhos aparecendo e a idolatração começa. Amigos meus mudaram de vida após descobrirem a fama do tanquinho e gente comum hoje tem mais de 20 mil seguidores que seguem, na verdade, o desejo pela barriga definida. 

Esse fenômeno espontâneo mapeia uma nova estética masculina, um novo desejo (que as mulheres nem ligam tanto), mas que para os homens se tornou questão crucial para pertencer ou não a um grupo urbano. Esse comportamento da sociedade é resultado de mais de 14 anos de sucesso de programas como Big Brother, que domina a cultura nacional, com foco em corpos esculturais na piscina, gerando desejo e inspiração para o brasileiro. O comportamento televisivo refletiu na vida das pessoas. Os 'fake' Big Brothers estão por toda parte: no shopping, na academia, nos bairros, na internet. É só prestar atenção. 

O mesmo jornalista inglês, que definiu os metrosexuais no início dos anos 2000, criou  agora outro nome para o fenômeno atual: os 'spornsexual'. 

Preste atenção no Instagram: homens, gays e héteros ( com tanquinhos a mostra) tem em média de 10 a 1000 vezes mais seguidores do que caras comuns, até bonitos, mas que não possuem seis (ou até oito) gominhos para mostrar.

Os abdomens tanquinho (equivalente a barriga negativa na mulher) não são fáceis de atingir para os homens normais. Existem duas chances de consegui-lo: a primeira é a genética. Sabe criança de tanquinho? Pois é, elas existem e crescem e se tornam homens de tanquinho. 

A outra forma é recorrer a dietas com extremas restrições alimentares (esqueça glúten, lactose, até pães e massas em geral devem ser descartados), e um esquema de exercícios físicos de atletas olímpicos, que envolva maratonas, cross fit, horas de musculação semanal (sendo ao menos cinco dias por semana e um músculo de cada vez), e muita corrida. Mesmo assim, uma deslizada no final de semana, pode levar o projeto água a baixo.  Álcool nem pensar. E qualquer descuido, significa um risco. Tanquinho tem pouca durabilidade e não aceita desaforo. Qualquer noitada pode arruinar o trabalho de meses.  O ícone da vez é Cristiano Ronaldo, que se diz viciado em abdominais, e jura que faz centenas de repetições por dia. 

Eu mesmo já cai no conto da barriga perfeita. Foram meses de sacrifício. Não via meus amigos para não ter que beber ou comer. Ia na academia duas vezes ao dia. E o resultado: sucesso. Não vou negar. Fotos no meu Instagram foram postadas, eu confesso. 

Mas tudo foi certamente passageiro e a manutenção disso exigiria uma mudança drástica de vida. Adeus restaurante Italiano! Adeus vinho! O tanquinho tem que ser o centro da sua existência, e eu, não tenho tempo pra isso, mas hoje, pelo menos, sei como é. E digo, é um sucesso.