1. Usuário
Assine o Estadão
assine
  • Comentar
  • A+ A-
  • Imprimir
  • E-mail

"É terrível quando você tem o gosto do poder de consumo e o perde"

- Atualizado: 01 Fevereiro 2016 | 09h 55

A responsável pela operação do maior portal de tendências do mundo no Brasil fala sobre o novo comportamento do consumidor brasileiro, a carreira de coolhunter e os desafios atuais do mercado

Jorge Grimberg

Jorge Grimberg
@jgrimberg

Jorge Grimberg é empresário, escritor, consultor de moda e especialista em tendências

Leticia Abraham, responsável pela operação brasileira do bureau de tendências WGSN

Leticia Abraham, responsável pela operação brasileira do bureau de tendências WGSN

Muitos jovens sonham com a carreira de coolhunter - a ideia de viajar o mundo em busca de tendências tornou-se uma carreira desejada e tema de diversos cursos em todo o Brasil. Pioneira no segmento, a empresa inglesa WGSN atua no mercado de pesquisa de tendências desde 1998 quando, junto com o boom da internet, criou um serviço online que possibilitou que profissionais das áreas de moda e design pudessem contar com informações estratégicas para entender o comportamento do consumidor e antecipar movimentos de mercado. Os serviços oferecidos pela empresa podem ajudar desde um estilista iniciante até uma prefeitura que precisa tomar decisões sobre os rumos de uma cidade. 

Quem comanda a operação da WGSN na America Latina hoje é a brasileira Leticia Abraham, de apenas 34 anos. Natural de Taubaté, no interior paulista, e com formação em administração pela Fundação Getulio Vargas, Letícia é apaixonada por pessoas. Em seu currículo, também há uma pós-graduação em ciências do consumo na ESPM e um mestrado em antropologia na PUC. Sobre a profissão de coolhunter, a carreira e os desafios atuais do mercado, Letícia fala na entrevista a seguir.

Como começou a trabalhar com pesquisa de tendências? 

Sempre fui muito curiosa e questionadora do sentido das coisas. Ficava buscando padrões em tudo o que eu via e fazia. E a verdade é que estudar tendência é exatamente isso: a busca de recorrência de padrões. Mas a busca por novos padrões, não os comuns. No começo da minha carreira, trabalhava com marketing e inovação em empresas multinacionais e consumia tendências como cliente. Até que, em 2009, me tornei sócia da Mindset, uma agência de pesquisa e planejamento de marca, que foi vendida em 2013 para a WGSN e hoje faz parte do catálogo de serviços do grupo. 

 

Como o negócio de pesquisa de tendências sobrevive e se desenvolve no mundo? 

Para que você consiga fazer estudos e monitoramento de novos comportamentos realmente bem feitos, você precisa ter um alcance global, ou seja, precisa de boas cabeças espalhadas pelo mundo. Sem dúvida que a conectividade virtual ajuda demais, mas nada como viver o lugar, conversar com as pessoas, estar presente de verdade em alguma cultura. Hoje, temos mais de 300 especialistas pelo mundo que se dedicam somente a buscar o novo, a antecipar esse conteúdo para os nossos clientes e a ajudá-lo a traduzir tudo isso em negócio. O que me inspira a trabalhar na WGSN, que é a razão pela qual existimos, é a nossa missão de criar o amanhã. Poder inspirar empresas e marcas a criar um amanhã que queremos ver e em que queremos viver e criar os nossos filhos é um privilégio. 

 

Com a velocidade da informação, como os movimentos globais atingem marcas e consumidores brasileiro? 

Atingem de uma forma rápida, mas ao mesmo tempo limitada. Rápida porque somos mais de 200 milhões de pessoas (e dezenas de milhões conectadas), das classes altas às mais baixas. Ou seja, a velocidade do consumo de um desfile de moda internacional, por exemplo, é muitas vezes imediata. Das favelas aos grandes centros, as novas modas são espalhadas. E aí, cada classe traduz e incorpora isso ao seu mundo, de acordo com o seu bolso e gosto. Mas ao mesmo tempo, digo que é limitada, porque somos uma cultura muito mais de seguidor do que de que criador. E culturalmente seguimos muito os norte-americanos, então acabamos absorvendo muito mais do que vem de lá do que o restante do mundo.

 

Se você tiver que eleger um movimento que irá influenciar os brasileiros em 2016, qual seria?

Eu acredito, e tenho fé, que um dos principais movimentos que veremos esse ano é a forma como reagiremos à crise que estamos imersos. Existe uma diferença fundamental no nosso contexto de hoje quando comparamos às outras crises pelas quais passamos: os últimos 10 anos foram de enriquecimento de todas as classes sociais brasileira, logo, de criação de novos hábitos de consumo. E está aí um ponto de vista muito humano: uma coisa é nunca ter tido acesso, outra coisa é ter conquistado e perder. É terrível quando você tem o gosto do poder de consumo e o perde. Assim, espero que esse gatilho humano seja combustível para um comportamento mais ativo de todos nós. 

Qual é o valor de pagar por um serviço de tendências considerando que há tanta informação gratuita nas redes sociais?

As redes sociais abrem um mundo infinito de referências, notícias, lugares, modas que entram, que saem....Mas, ao mesmo tempo, abrem um mundo de confusão. Um mundo, muitas vezes, raso e sem fundamento. Por isso, acredito que sempre existirá espaço para produtos como a WGSN, assim como para os principais jornais e revistas. Veículos que trazem confiabilidade, curadoria e assertividade no que apresentam. A diferença no contexto atual é que aumenta a seleção natural, isto é, só os mais fortes conseguem sobreviver.

  • Tags:
Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Estadão.
É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O Estadão poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.

Você pode digitar 600 caracteres.

Mais em Vida & EstiloX