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Moda em campo - a evolução dos uniformes

Fabiana Corrêa - Especial para O Estado de S. Paulo

23 Junho 2014 | 12h 00

O marketing das marcas esportivas transformou os jogos em verdadeiros desfiles

Fernando Muslera, o goleiro e estrela da seleção do Uruguai, amargou uma derrota no jogo com a Costa Rica ao ver a bola passando três vezes para dentro de suas traves. O futebol não foi lá essas coisas, mas em matéria de estilo a seleção uruguaia jogou um bolão. Muslera foi de color blocking com seu uniforme laranja e chuteiras rosa-choque, tendência que dominou os desfiles de moda há algumas temporadas (em que os looks se compõem por blocos de cores vibrantes). E o resto do time fez sucesso, ao menos entre a torcida feminina, com as camisas coladas ao corpo, criadas pela Puma especialmente para esse mundial. O estilo marombeiro foi adotado também pelas seleções da Costa do Marfim, Gana e Camarões, algumas das que são patrocinadas pela marca alemã. E haja suspiro.

Mas nada é por acaso, ou pura vaidade, quando se trata do espaço mais observado no maior evento esportivo do planeta. É por estratégia de marketing que os fabricantes de artigos esportivos colocam seus designers e cientistas para trabalhar quatro anos antes do chute inicial e, assim, atrair olhares vindos de todas as partes do planeta. "Se os uniformes estão cada vez mais inusitados, não é a toa, esse espaço custa uma fábula em termos de publicidade", diz o fotógrafo Ricardo Corrêa, que já cobriu cinco copas e é curador-geral da exposição Brasil, um país, um mundo, que traz exemplos de uniformes de seleções desde os primórdios do esporte.

O efeito do investimento em novos produtos já pode ser sentido: a pequena remessa de camisas justinhas que foi colocada à venda no Brasil se esgotou em poucos dias. "Já temos pedidos de jogadores fora da Copa e de times locais ", diz João Diago, responsável pela área de futebol da Puma. O motivo da procura é a tecnologia que está por trás do modelo - o tecido é composto por faixas de silicone que diminuem a vibração dos músculos e reduzem o cansaço muscular durante a partida. Como efeito colateral, a camisa ajustada denuncia quando um jogador é puxado pela roupa, o que ajuda o juiz a identificar uma falta.

E quando se trata dessa união entre marketing e estilo, não há exemplos mais chamativos que as chuteiras. Desde o momento em que as primeiras seleções entraram em campo no dia 12, elas não passaram despercebidas em nenhum gol. A Nike, que começou a fazer modelos coloridos a partir do mundial de 1998, trouxe nessa Copa a Magista, preferida de David Luiz e Andrés Iniesta, que ajudou a desenvolvê-la. O modelo tem uma espécie de meia que sai da chuteira e vai até o tornozelo em tom de marca-texto. "Testamos mais de 150 protótipos até chegar nesse. Ela foi desenhada para conectar melhor pés e pernas", diz Alexandre Alfredo, diretor de comunicação da Nike. O material do calçado faz com que pés e chuteiras fiquem mais unidos, o que serviria para criar a sensação de que se está com os pés descalços - e leva os jogadores aos primórdios do futebol-arte. É que na Inglaterra, os operários que difundiram o esporte jogavam com botas de couro, por isso aprenderam a chutar de bico. No Brasil, os meninos pobres jogavam descalços, o que acabou virando uma vantagem. "Por isso foram aprendendo a chutar de lado, de trivela, de calcanhar, tudo para poupar o dedão. E se tornaram muito mais criativos", diz Ricardo Corrêa. Se os jogadores voltassem ao passado e dispensassem suas chuteiras, no entanto, a Nike amargaria um grande prejuízo. A empresa movimenta US$ 2 bilhões por ano apenas com produtos voltados para o futebol.

Toda a tecnologia dos calçados vêm embalada em mais e mais cores a cada Copa. Fica difícil não notar os jogadores com uma cor diferente em cada pé, como é o caso das chuteiras cor-de-rosa e azul bebê da Puma. Cristiano Ronaldo, como não poderia deixar de ser, apareceu ainda mais com chuteiras pink elétricas e lançou tendência. Graças a eles, garotos brasileiros que antes tinham preconceito de cor (nas roupas), hoje usam rosa choque sem medo. Já a Adidas foi contra a corrente e veio com uma coleção branca e preta, inspirada nas pinturas de guerreiros tribais. Além da estampa diferente em cada modelo, cada um traz características indicadas para cada posição em campo. Nas lojas, tanto chuteiras como camisas fazem sucesso entre consumidores e se transformam em itens de colecionador fashion, apesar dos preços nada modestos. Mais ou menos como aquelas it bags que enfeitam vitrines das grifes de luxo e são disputadas pelas mulheres a cada coleção. 

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