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Entrevista. Nicolas Ghesquière

Na Vuitton, estilista lança coleção para mulheres ativas

Lilian Pacce - ESPECIAL PARA O ESTADO

08 Junho 2014 | 09h 00

Para uma marca centenária, fundada em 1854, de tradição em malas e bolsas, inovar apostando no efêmero segmento da moda foi um passo no mínimo ousado. A ousadia, no entanto, compensou os esforços e a Louis Vuitton adquiriu novo status quo desde que lançou sua primeira coleção de roupas prêt-à-porter sob direção criativa do americano Marc Jacobs em 1997.

Dezesseis anos depois, a maior marca de luxo do mundo decidiu que era hora de dar o próximo passo e contratou no final do ano passado o estilista francês Nicolas Ghesquière para substituir Marc. Em sua gestão, Marc, que também tem as próprias marcas sob o guarda-chuva do maior conglomerado de luxo do mundo, o LVMH (Louis Vuitton Moet Henessy), colocou a Vuitton no circuito das artes criando parcerias com Takashi Murakami, Richard Prince e Yayoi Kusama, entre outros, e exercitou a fantasia onírica no guarda-roupa feminino.

Já Nicolas, nesse mesmo período, estava no grupo concorrente (PPR Kering) cumprindo a mesma função: inovar a icônica Balenciaga, cujo fundador foi um dos maiores criadores do século 20, expert em construções e silhuetas. Dois expoentes de uma geração, Marc (51 anos) e Nicolas (43 anos) foram devidamente bem-sucedidos, cada um com suas respectivas ferramentas.

Agora, Nicolas leva sua caixinha de ferramentas pra Vuitton e, em menos de um ano, já deixa claro a direção que ele e a Vuitton pretendem imprimir na marca: uma mulher mais real, jovem e cool – talvez tão cool quanto sua amiga e musa, a atriz e cantora Charlotte Gainsbourg, de quem ele fala nesta entrevista.

Divulgação
Cruise. Coleção de estreia do estilista francês na Louis Vuitton foca em um novo público

Depois da boa estreia de Nicolas em março com a coleção outono-inverno 2014/15, a Vuitton realizou pela primeira vez um desfile da coleção Cruise. Cruise ou resort é uma coleção de meia-estação – um nicho que vem ganhando atenção especial das marcas de luxo. Para coroar literalmente esta estreia, a Vuitton escolheu o principado de Mônaco como cenário, levando 300 convidados até lá. O desfile aconteceu numa enorme e futurista caixa de vidro, montada especialmente para a ocasião, bem em frente ao palácio onde Albert II e Charlene esperam seu primeiro filho, o herdeiro dos Grimaldis, uma dinastia de mais de 700 anos. Foi lá que nossa entrevista começou – a primeira concedida por Nicolas para a América LatinaEm sua primeira entrevista para a América Latina, Nicolas Ghesquière, o novo estilista da Louis Vuitton, falou sobre seus planos logo após o seu desfile de estreia pela marca para a coleção Cruise, que ocorreu em Mônaco, a convite da princesa Charlene, em maio.

Quando você se sentiu atraído pela moda?

O desenho é minha primeira lembrança de moda, eu desenhava muito. Ele foi se voltando para o desenho de moda e foi uma isca pra eu descobrir o mundo da moda, ainda que a uma certa distância. Enfim, foi pelo desenho que comecei a amar a moda até ser totalmente capturado quando comecei um estágio com Agnès B aos 16 anos e, depois, no meu primeiro trabalho, aos 18, com Jean Paul Gaultier. Desde então, não parei mais!

O que o atraiu a trabalhar na Vuitton?

É incrível como a Louis Vuitton é um universo de contrastes. Os arquivos, o patrimônio, as histórias são muito importantes e, ao mesmo tempo, há um enorme campo imaginário. Há um patrimônio real, (re)conhecido, que existe ao lado deste espaço imaginário. São tantas histórias guardadas nos arquivos! Você vê algo que foi criado especialmente para alguém e que pode pontuar uma coleção, como as pequenas máscaras que aparecem nas bolsas do desfile – na verdade, elas foram inspiradas nas malas rígidas criadas especialmente para levar a coleção de máscaras africanas de Gaston Louis Vuitton. Achei isso genial e interpretei do meu jeito, com o monograma (as letras LV que são a logomarca) – é uma referência bem livre, mas que está ali. Ou seja, o patrimônio é algo extraordinário na Vuitton, mas, ao mesmo tempo, há a liberdade de criar e transformar com muito respeito o que existe, e isso já vinha sendo feito antes da minha chegada. Trata-se do seu olhar. Sem nenhum detrimento da excelência e da beleza na fabricação de cada item, esta cultura mais lúdica é muito importante aqui. É preciso criar o desejo de moda, sim, mas de preferência com um sorriso no rosto.

Não quero ser previsível. Quero fazer moda de maneira espontânea, instintiva, criando um desejo imediato

Os anos 70 são uma grande referência em seu trabalho...

Sim, podemos dizer que meu imaginário na Vuitton é muito associado aos anos 1970, especialmente à mãe de Charlotte Gainsbourg, a atriz e cantora Jane Birkin, que tinha um estilo supercool e descolado, mas ao mesmo tempo viajava com malas Vuitton, que eram exatamente um símbolo da burguesia. Jane fazia isso com um estilo próprio e, pra mim, este é o caminho a se seguir. Existem muitas maneiras de lidar com a marca e esta maneira tem a ver com a nova geração. Mesmo inspirado nos anos 70, é um jeito de dizer: “Olhe, isso é acessível, descolado, dá pra usar o monograma de um jeito cool, divertido".

Como você avalia este seu começo na Vuitton?

Eu diria que é um belo desafio levar o prêt-à-porter a uma nova fase, mais direcionada a uma nova geração de clientes. É isto que me encanta, e é isso que fizemos neste primeiro desfile Cruise da Vuitton: mostrar que o prêt-à-porter adquiriu uma enorme importância pra marca.

Qual mulher você quer criar para a Vuitton?

Há algumas mulheres ícones, mas, na verdade, é uma mulher múltipla, que tem a ver com muitas mulheres. Vejo que muitas mulheres se reconhecem na coleção e podem escolher o que lhes agrada. Eu apresentei um guarda-roupa usável, funcional, formado por silhuetas bem estruturadas, mas também fluidas, para mulheres ativas. Nossa campanha de publicidade também vai refletir esta diversidade, de diferentes perfis de mulher.

Com quais materiais você gosta de trabalhar?

A força dos materiais é enorme aqui. Nesta coleção, por exemplo, fizemos o "corduroy fur" (pele de veludo), que é o pelo do castor cortado como um veludo cotelê, queimado como um carimbo, criando faixas em relevo. São técnicas de couro que a gente está experimentando nas roupas. Este casaco, aliás, é dublado em couro, com uma pele muito leve – é muito menos burguês do que um casaco de visom e ao mesmo tempo tem esta ambiguidade entre o veludo cotelê e a pele em si. Ele poderia ser de visom, mas não é – e é esta ideia do verdadeiro falso que eu adoro.

Parece que as bolsas ganharam ainda mais destaque desde que você começou

Claro que as bolsas são fundamentais na marca, mas para mim o importante é torná-las parte das coleções de prêt-à-porter, criando uma silhueta de moda que integre roupas e bolsas. Neste primeiro desfile Cruise, isso foi uma mensagem importante: mostrar que o prêt-à-porter está ganhando uma posição de destaque na marca e as bolsas fazem parte desse novo capítulo da história. Por isso fico muito feliz ao ver o sucesso do modelo “mini-malle” (bolsa que imita um microbaú). Na minha primeira coleção, apresentada em março, decidimos segurar novas padronagens para este desfile Cruise, pois estampas florais e decorativas são algo muito novo na Vuitton. Por exemplo, a padronagem que chamamos de "maltage" na verdade é o matelassê usado no forro desde os primeiros baús da Vuitton. O losango matelassê aparece nas novas bolsas e agora também nas roupas: transformamos a geometria dos losangos numa espécie de galhos bordados no jérsei – ou seja, tem estampa, mas são estampas com bordados, com transparências, com bordados, com um enorme trabalho. Isso faz parte do padrão de excelência da Vuitton, um respeito extraordinário pela manufatura em todos os aspectos, do couro aos tecidos e acabamentos.

Aonde você quer levar a Vuitton?

Estou desenvolvendo uma assinatura que seja reconhecível sem ser muito datada, ligada a cada estação em si, o que é muito interessante. Mas não quero ser previsível. Quero fazer moda de maneira espontânea, instintiva, criando um desejo imediato, direto. Fico feliz que isso já seja identificado na nova silhueta, mas para mim é importante que seja fácil de entender, também. Embora pareça genérico, isso é Vuitton, uma marca moderna que acompanha as pessoas através dos tempos, é um modo de vida, muito contemporâneo. E isso vem ao encontro do que acredito: a Vuitton deve ser uma marca que fala com muita gente e não apenas com um nicho.

Quem são suas musas?

Charlotte Gainsbourg, que é uma mulher muito corajosa. Ela faz escolhas radicais – e temos isso em comum, não fazemos nada pela metade. É uma verdadeira atriz, que não tem medo de papéis que outras temeriam. Adoro isso, acho muito inspirador. Ela é fora do comum, uma verdadeira iconoclasta – pode fazer tanto uma comédia francesa quanto o Anticristo ou Ninfomaníaca (filmes de Lars von Trier), é realmente múltipla. E há também o lado afetivo: somos da mesma geração, nascemos no mesmo ano. É como se tivéssemos crescido juntos. Quando nos conhecemos, senti que eu já a conhecia a vida toda!