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Entrevista. Mário Queiroz

Em entrevista ao Estado, o estilista Mário Queiroz fala sobre a relação entre a moda e o cinema, tema de um novo curso no Cinesesc em setembro, e explica algumas das mais emblemáticas representações do homem nas telonas

"O cinema é a maior referência da moda"

Maria Beatriz Gonçalves

01 Setembro 2014 | 10h 37

Divulgação
Mário Queiroz ministra curso sobre moda masculina e cinema

O estilista de moda masculina Mário Queiroz é incansável: designer, consultor e professor de moda, ele faz questão de não estabelecer fronteiras rígidas entre o mundo acadêmico e sua vivência de criação para as passarelas. Depois de um mestrado e um doutorado em Comunicação e Semiótica pela PUC/SP, o estilista tornou-se pesquisador de temas envolvendo a indumentária masculina. Nessa segunda-feira, ele dá início a um curso com duração de 5 dias, no Cinesesc Augusta, em São Paulo, onde discutirá as muitas representações da moda masculina no cinema, partindo da análise de figurinos, do estilo e do corpo de importantes personagens para explicar como eles refletiram as grandes mudanças culturais da sociedade. Desde a figura forte de Marlon Brando em “O Selvagem” até a reconstrução da imagem de um homem mais sensível na imagem do protagonista de “Ela”, o estilista discute as muitas transformações pelas que passaram os homens, nas telas e nas ruas;

Qual é a relação entre cinema e moda?

A moda olha muito para as décadas passadas, quando a gente vai fazer uma pesquisa para uma coleção nova, é um hábito do estilista pesquisar o figurino de um filme que retrata os anos 60, ou que retrata os anos 20, assim como a gente teve uma influência muito grande recentemente do filme “O Grande Gatsby” na moda. Essa apropriação e essa troca entre moda e cinema são constantes. O cinema é a grande porta para você entender o comportamento das pessoas. Quando a gente fala de macro tendência, por exemplo, são as influências que vão dirigir não só a moda mas toda a forma de design. Como o cinema tem uma fase de produção muito grande e um investimento muito alto, os temas que aparecem no cinema estão muito relacionados ao comportamento das pessoas e isso acaba influenciando também na forma como elas vão se vestir. Uma das coisas que a gente percebe hoje é que o cinema fala muito sobre personagens infantis, sobre heróis e isso tem muito a ver com um certo escapismo, uma forma de as pessoas buscarem uma fuga da realidade por meio de um certo infantilismo que aparece entre os adultos, por exemplo, que têm o telefone celular como um brinquedo… Então, muito do que a gente vê no cinema hoje, como as várias versões recentes de “Branca de Neve”,  a “Malévola” e mesmo os filmes todos de super heróis, tudo isso acaba demonstrando para a gente como é forte essa relação.

Divulgação
O personagem de James Dean em cenas de Juventude Transviada. Visual personificava a rebeldia da década de 50

O cinema influencia mais a moda ou vice-versa?

Acho que o cinema é a maior referência de moda. O figurino no cinema é diferente da moda porque o figurino em um filme de época, por exemplo, vai sempre tentar retratar o que existia, e a moda não, a moda é sempre uma reinvenção. Como estilista, eu posso me influenciar por algo dos anos 20 na hora de criar uma roupa de 2014. Por outro lado, o cinema acaba sendo um precursor do que a moda vai trazer como tema – e eu não vejo a moda apenas como um tipo de roupa, nesse caso, os gestos e até a pose do modelo em uma imagem interessam como objeto de inspiração. 

E como você vai tratar isso em sala de aula?

O cinema é uma ótima forma de a gente perceber como o homem começou a se posicionar na moda – não só no vestir-se mas em todas as formas como ele quer se representar. Ou seja: entender como é que esse masculino se representa e falar um pouco sobre essa herança que vem dos filmes de Hollywood principalmente. Vou falar desde o início do cinema até os dias de hoje, mostrar cenas de filmes e grandes editoriais. Quero que os alunos percebam que a fotografia de moda deve muito ao cinema. Uma das imagens do homem que eu vou trabalhar no curso é a do homem no conversível, uma cena que aparece com muita freqüência no cinema e na moda.

Por trás disso está essa imagem de rebeldia e do poder associado ao carro...

Todas as pesquisas que eu estou fazendo sempre batem no Marlon Brando e James Dean como figuras centrais. Foram eles que sinalizaram a mudança da juventude, ou seja, o surgimento desse mercado jovem. Então aparece o jeans, a jaqueta de motocicleta, a camiseta branca... são vários ícones da moda que surgiram a mais de 50 anos e que se mantém com força até hoje na representação do que é ser homem.

Reprodução
Blade Runner se passa em uma decadente Los Angeles de 2019. O figurino marcante dos personagens mistura referências retrô e futuristas

A masculinidade é um tema que está em pauta, aparece em filmes como “Ela”, onde começa-se a rediscutir essa imagem do masculino viril em contrapartida à imagem de um homem mais sensível. Como o cinema e a moda têm tratado isso?

A grande novidade nessa questão de masculinidade é que a gente teve um momento em que se falava de um novo homem e hoje, na verdade, são muitos novos homens. Não existe mais “o homem careta” e o “homem mais preocupado com a vaidade”. Ou seja: pela primeira vez você não tem apenas o homem casado e o homem jovem, solteiro. O masculino é diverso e complexo. Para os homens, passou a ser uma exigência muito grande a preocupação não só com a roupa mas com a aparência por causa, principalmente, da entrada da mulher no mercado de trabalho. A linha entre masculino e feminino está cada vez mais tênue. O doutorado que eu defendi chama-se “Homem e/ou Mulher”. O que eu quis dizer com isso? Que hoje em dia a moda traz essa imagem que tem os dois lados: uma mulher mais dura, mais voltada aos negócios, e, ao mesmo tempo, estamos vendo homens que ficam em casa, que cuidam de crianças, homens mais poetas, que gostam de rosa, que cuidam do cabelo… isso é uma novidade.

Muitos filmes recentes se destacam por dar grande peso para a questão estética. Você acha que o cinema também está mais aberto para a moda em alguma medida?

Com certeza. Na verdade eu acho que isso é uma exigência dos tempos que nós estamos vivendo. A maior conquista do nosso século é a individualidade, a liberdade, então isso influencia e torna as pessoas mais abertas. Antigamente, a gente tinha os filmes convencionais e os filmes de vanguarda. Hoje em dia eu acho que Hollywood se abriu para essa vanguarda. É óbvio que existem alguns compromissos, algumas limitações de linguagem e os produtores com certeza interferem… Mas antigamente existia mais claramente a marcasde vanguarda e as marcas clássicas.

Reprodução
Fortemente preocupado com o aspecto estético de seus filmes, diretor Spike Jonze deu para Theodore, o sensível protagonista de "Ela", um visual hipster

Existe um movimento ou escola no cinema que seja o seu favorito?

Muitos diretores me influenciaram. Fellini e os filmes italianos quando mostram esse homem sempre preocupado em ser elegante, a figura do Marcello Mastroianni em “La Dolce Vita”, filmes que tratam essa questão do estilo do homem mais exibido e que gosta da moda. Mas também o cinema americano, com os filmes ligados a Marlon Brando e James Dean por causa dessa revolução jovem. Eu sou um misto de vários diretores. Quando tinha 20 anos a gente ainda sofria muito a censura no Brasil. Então para mim era muito importante quando surgia alguma brecha e eu podia ver filmes que eram proibidos, filmes tidos como revolucionários… Para mim um filme muito importante é “Blade Runner – o Caçador de Andróides” porque em um único filme você tem personagens que retratam diversas décadas e ao mesmo tempo é uma nova ficção científica, fala de um futuro de uma forma muito diferente.

E dos filmes brasileiros?

“Dona Flor e seus dois maridos”,  que traz essa questão da brasilidade e tem a figura do Vadinho, esse personagem que representa o “malandro”, sempre em contraste com o homem tradicional, muito sério, que era o marido da Dona Flor.

Quem é o homem do novo milênio? Para quem você cria moda hoje?

Desde quando comecei, crio moda pensando num homem que não está satisfeito com as propostas que existem no mercado comum de varejo no Brasil. Sempre pensei nisso: um homem que não quer ser sério demais, que quer ter opções, que não tem preconceito com cor, que quer volumes e, principalmente, que acha que a moda é uma expressão dele. Nesse impulso em se expressar ele acaba criado moda.

Reprodução
Visual elegante de Marcello Mastroianni em A Doce Vida, de 1960, rendeu ao ator a fama de sex symbol e muitas homenagens no mundo da moda

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