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Os desafios de comprar roupas produzidas eticamente

- Atualizado: 26 Janeiro 2016 | 09h 16

Carioca radicada na Alemanha, a jornalista Gabriela Roméro não consome mais produtos de moda feitos em condições de trabalho precárias. Em um ano, conseguiu comprar apenas 11 peças e, aqui, relata as dificuldades que vem enfrentando nessa missão 

 

A camisa da foto foi comprada na loja Eterna, especializada em camisas.

A camisa da foto foi comprada na loja Eterna, especializada em camisas.

“Resolvi assumir esse compromisso há um ano, um pouco antes de deixar o Rio e me mudar para Erlangen, uma cidade no sul da Alemanha, próxima a Nuremberg.. No primeiro momento, imaginei que o problema não seria rever a forma de consumo propriamente, mas descobrir o que é feito respeitando condições saudáveis de trabalho ou não. Levado às últimas consequências, isso significa assegurar que toda a cadeia de produção respeita padrões éticos, do cultivo/criação da matéria prima do tecido, até o modelo de trabalho na loja que revende a peça. Isso é ainda mais difícil do que parece. Durante todo o ano passado, adquiri dois suéteres de cashmere, quatro camisas, palmilhas de lã para o extremo frio, três sapatos e um gorro de lã."

 

O primeiro suéter de cashmere 

 

"Viajei para a Europa durante o inverno e, ciente do frio que encararia pela frente, pretendia comprar um bom cashmere, desses que duram uma vida inteira. Estava tão ansiosa com a ideia que em Paris, mesmo sabendo que iria depois para a Escócia, me encantei pelo primeiro que vi. Embaixo do nome da marca, Eric Bompard, estava escrito “Paris” e a etiqueta não trazia informações sobre o local de produção (uma das maiores ciladas para quem quer comprar eticamente – se não querem que você saiba onde é produzido é porque, no mínimo, não se orgulham disso). Perguntei ao vendedor se eles eram produzidos na França e ele disse que sim, mas, depois de passar o cartão, perguntei a outra vendedora onde eram feitos. Ela respondeu: “Na China. Mas as ovelhinhas são muito bem tratadas.”

 

Não tenho nada contra ovelhas, mas quando o bem-estar delas se torna foco de atenção maior que o de seres humanos, não me agrada nem um pouco. Baita decepção. Na internet, encontrei pouca informação sobre o fabricante, mas ele parece de forma geral ser sério. Pelo que encontrei, é dono da própria fábrica na China, o que costuma ser melhor indício de responsabilidade do que fabricantes que optam por terceirizados. Ainda assim, a compra perdeu um pouco a graça pra mim."

Carioca radicada na Alemanha, Gabriela Roméro não consome mais produtos de moda feitos em condições de trabalho precárias. Em um ano, conseguiu comprar apenas 11 peças 

Carioca radicada na Alemanha, Gabriela Roméro não consome mais produtos de moda feitos em condições de trabalho precárias. Em um ano, conseguiu comprar apenas 11 peças 

 

O segundo suéter de cashmere 

 

"O suéter que eu queria ter comprado e o único que deveria ter comprado, da Johnstons of Elgin. A marca parece ser séria, começou a fabricar no século XVIII e mantém sua produção de forma controlada e familiar na Escócia. É figurinha carimbada de várias lojas online especializadas em moda ética. É o tipo de peça que vou usar para sempre. Quando eu morrer aos 120 anos de idade, poderei ser enterrada com ela."

 

A camisa de inverno da Merci

"Fica aqui outra confissão e dica sobre compra ética: o nome do país de origem da peça é um indício muito fraco sobre a produção. Assim como uma fábrica pode ser séria em Bangladesh (é raro, mas há cada vez mais projetos do gênero), uma etiqueta exibindo o nome de um país da União Europeia não é grande garantia. Cuidado especial com a Itália, que passa uma ideia de seriedade e alta moda, mas teve escândalos de uso de trabalho escravo e condições insalubres ainda no final de 2013 e tem uma legislação bastante flexível para o uso do nome do país em etiquetas. Uma roupa que tenha uma porcentagem ínfima produzida na Itália já pode receber essa etiqueta, mesmo que a maior parte dela tenha sido produzida numa fábrica caindo aos pedaços com trabalho análogo à escravidão no sudeste asiático. Em suma, comprei ignorante e feliz uma camisa “Made in Italy” na multi-marcas francesa Merci, uma das mais badaladas de Paris, e até agora não sei se sua origem é confiável."

Palmilhas de lã

"Apesar das botas reforçadas, senti muito frio nos pés. Num jantar, uma amiga me sugeriu que eu comprasse palmilhas de lã na Primark (loja de – extremo – fast-fashion). Contei sobre a minha resolução e resolvi aguentar o frio. Dias depois, passei numa loja especializada em produtos de pequenos produtores locais. Achei as tais palmilhas, produzidas por uma pequena marca do Reino Unido. Mais uma vez, não é garantia, mas um indício de boas práticas."

 

Sandálias gregas

"Sou apaixonada pelas sandálias da marca Ancient Greek Sandals há uns dois ou três anos e ficava namorando os modelos pela internet. Elas são feitas à mão na Grécia, num processo e dentro de uma lógica que parecem ser bem sérios. Quando vim morar na Europa, elas estavam no alto da minha lista de desejos, mas sempre ia deixando para depois. Encontrei as minhas com 50% de desconto (ainda assim não foram baratas) numa loja de departamento em Munique. Às vezes o universo recompensa a gente pelo esforço em comprar direito."

Os produtos comprados por Gabriela Roméro
Divulgação
Suéter Eric Bompard

A primeira compra de Gabriela na Europa foi um suéter de cashmere da marca Eric Bompard. "Estava escrito “Paris” e a etiqueta não trazia informações sobre o local de produção (uma das maiores ciladas para quem quer comprar eticamente – se não querem que você saiba onde é produzido é porque, no mínimo, não se orgulham disso). No fim, a compra perdeu um pouco a graça para mim", conta. O modelo da foto custa 235 euros.

 

Alpargatas made in China

"Conheço a marca Toms desde 2012, quando foi recomendada por uma amiga bem antes da minha resolução. Ela produz na China e é famosa pelo seu lema de doar um par de sapatos para cada um comprado. Eles possuem ainda outros programas sociais, que propagandeiam no seu site. Os projetos parecem até ser bem interessantes. As fábricas que usam são terceirizadas e eles anunciam fazer auditorias e visitas surpresas periódicas aos seus fornecedores. 

 

Mas, depois da compra, refleti: se o foco é fazer caridade em vez de produzir postos de trabalhos em boas condições, a conta não parece fechar. O holofote está no lugar errado, o que faz pensar sobre o que está sendo tirado da vista na sombra. Mais que isso: se eles preferem dobrar a produção para fazer caridade, quer dizer que você está pagando por dois sapatos e que, ainda assim, isso deve sair mais em conta para a marca do que assegurar de verdade que toda a sua cadeia de produção seja estritamente ética. 

 

Não à toa, um dos novos princípios da moda ética é 'no charity, just work' ('não é caridade, é trabalho'). É assim que a moda pode verdadeiramente mudar a vida de pessoas e das localidades onde as fábricas se instalam. Na época, a compra ainda parecia estar dentro do critério ético e fazer sentido. Seria hipócrita dizer que me arrependo depois de tanto desfrutar do sapato, mas com certeza não compraria de novo."

Sapatilhas artesanais

Descobri as sapatilhas Josefinas por acaso e me encantei pelos modelos e pelo trabalho. Elas são feitas artesanalmente em Portugal, usando a expertise de antigos artesãos. Como não há  loja física, comprei as minhas pela internet e elas foram entregues na Alemanha."

 

Camisa "Eterna"

"Depois de descartar várias compras na Alemanha por não encontrar informações sobre os fabricantes, vi a vitrine da loja Eterna e torci muito para que fossem sérios. Antes de comprar, voltei para casa e fiz minha lição: pesquisei sobre eles. A loja é especializada em camisas, como a Dudalina no Brasil (que por sinal parece ser seríssima e tem um site supertransparente sobre a sua forma de produção e preocupação social). A Eterna possui as próprias fábricas, faz parte de grupos de instituições dedicados a procurar as melhores práticas de trabalhos nos seus estabelecimentos e conta com diferentes certificados no que diz respeito à responsabilidade socioambiental. Da última vez que pesquisei, a mais recente melhoria em suas fábricas havia sido a construção de um ginásio para os funcionários. Além disso, as camisas são bem bonitas e amarrotam pouco."

 

Camisa “Storytailors”

"A melhor compra dos últimos tempos, sem dúvida. Caminhando em Lisboa, indo do Chiado ao Cais de Sodré, passei com minha mãe e uma tia por essa loja. Um vestido de alta costura chamou a nossa atenção na vitrine e entramos. Lá dentro havia peças extremamente inventivas e me apaixonei por uma camisa com mangas e golas removíveis. Ou seja, poderia ser usada ao menos de quatro formas diferentes. Quando experimentei, ela parecia apertar em uns lugares e sobrar em outros, embora o ombro estivesse perfeito. Parecia apenas uma questão de soltar a costura. Em dois minutos, o estilista estava conosco, mostrando que não era uma questão de estar justa, mas sim que a proporção da camisa era para alguém com o tronco maior do que o meu. Usando alfinetes, ele diminuiu em dois lugares e a camisa ficou perfeita.

 

Começamos a conversar sobre meu interesse por moda ética e ele nos mostrou todo o trabalho. Fizemos um tour pelo ateliê, conhecemos a costureira e o outro estilista e saímos como uma história para contar que jamais ocorreria numa compra rápida e impessoal numa loja de fast-fashion. A camisa foi ajustada e dois dias depois entregue no hotel. Tiraram minhas medidas, que ficaram guardadas em um banco de dados. Antes de voltar para o Brasil vou encomendar outra do mesmo modelo, em outra cor."

Na foto, a jornalista Gabriela Roméro veste uma camisa comprada no brechó “Made in Berlin”

Na foto, a jornalista Gabriela Roméro veste uma camisa comprada no brechó “Made in Berlin”

Camisa estampada comprada no brechó “Made in Berlin”

"Não existe forma mais sustentável de se comprar do que em brechós, mas é muito comum as pessoas terem preconceito com as peças de segunda mão. Esse era o meu caso. A primeira peça que comprei na vida em um brechó foi uma camisa que sequer tinha etiqueta, não duvidaria se for uma peça única. Ela tem uma cara bem anos 1970 e ficou perfeita no ombro e no tamanho da manga, algo que é difícil em uma camisa já pronta. Em brechó não tem jeito: tem que ter paciência, dar sorte e experimentar para ver se funciona. Pelo visto, não funcionou para muita gente, porque a etiqueta com preço estava riscada e ela estava em promoção. Paguei apenas 9,90 euros. Brechós, depois de assaltos a armários de familiares, é a forma mais barata de se vestir eticamente. E você vai encontrar coisas realmente interessantes.”

 

Gorro de lã

Comprei numa feira de natal, pois era bonito e algo que eu precisava, e por ser vendido em uma feira parecia ser feito de forma local. Ao chegar em casa e pesquisar sobre a marca, Akaz, descobri que parece ser uma empresa polonesa especializada em gorros mais elaborados. Difícil saber o quão ética ela é. Não tem muito jeito, rastrear a cadeia produtiva de uma peça é sempre um desafio."

 

Extra extra: as lingeries

"Este texto ia acabar com uma omissão, que está mais para um processo de negação. Antes de me mudar, fiz um “enxoval” de calcinhas e sutiãs. Para mim, é sempre difícil encontrar sutiãs que me agradem. Quando finalmente encontrei, descobri que era fabricado no Sri Lanka e era da Loungerie, uma loja em que basicamente cada modelo é fabricado em um país diferente, o auge da terceirização e da falta de controle das práticas de trabalho por parte da marca. Comprei um no desespero, mas dias antes de viajar acabei comprando vários outros. Não fiquei nada feliz com a opção e divido aqui mais esse desafio da moda ética: a dificuldade de encontrar variedade e informação sobre onde comprar eticamente, em especial do Brasil.

 

Espero que meus percalços nesse caminho possam ajudar a entender as dificuldades e felicidades do processo. Como vocês podem ver, é cheio de tropeços e novas reflexões. Não é simples e, no curto prazo, não costuma ser barato. Não existe roupa produzida com direitos trabalhistas por menos de US$ 10 (se você der muita sorte, só no brechó ou em bazares). Porém, pela minha própria experiência, uma sapatilha da H&M durava um ano, enquanto calço quase diariamente ainda hoje a sapatilha Ferragamo que comprei para o dia do meu aniversário de 15 anos. No final, é uma questão de investimento financeiro e moral."

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