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Entrevista. Amir Slama

Um dos responsáveis por tornar a moda praia brasileira uma referência mundial, o estilista fala sobre sua volta para a SPFW, as consequências da venda da marca que criou, a Rosa Chá, e as dificuldades de empreender atualmente

“Quem trabalha com moda no Brasil precisa ser muito apaixonado”

O estilista Amir Slama é um dos responsáveis por tornar a moda praia brasileira uma referência mundial

O estilista Amir Slama é um dos responsáveis por tornar a moda praia brasileira uma referência mundial

Não é exagero dizer que quase ninguém entende tanto de biquínis quanto Amir Slama. O estilista, conhecido por fundar a Rosa Chá em 1998, tornou a moda praia brasileira uma referência mundial. Nos dez anos em que dirigiu a marca, vendida ao grupo Marisol em 2009, as criações de Slama caíram nas graças de mulheres mundo afora - entre elas a top Naomi Campbell, que chegou a fazer uma parceria com a grife - e foram apresentadas na Semana de Moda de Nova York. Agora, ele volta às passarelas da São Paulo Fashion Week com sua grife homônima, fundada em 2011.

 

Com lojas em São Paulo e no Rio de Janeiro, o estilista planeja expandir para o mercado externo e ajudar a manter o espaço brasileiro no setor. “A praia está aí, com modelagens muito facilmente copiadas, a produção é mais agilmente feita na China... Então precisamos saber aproveitar o espaço que temos e não deixarque tomem nosso lugar”, diz Slama. A seguir, ele fala mais sobre a carreira, o sucesso de suas criações e o atual momento do mercado de moda.

 

Por que decidiu voltar a apresentar uma coleção na semana de moda?

A decisão de mudar o calendário da São Paulo Fashion Week para que as coleções cheguem às lojas simultaneamente aos desfiles foi um dos motivos que me fizeram querer voltar a participar. Acho que a moda hoje é muito dinâmica e as redes sociais, ou mesmo sites, informam tudo muito rapidamente. Quando você lança uma coleção e esse produto só chega depois de três ou quatro meses, a pessoa que pode consumir isso, que já é algo mais caro, tem a sensação de que já o teve, de tanto que viu. Então ela não vai mais querer pagar por aquilo.

A trajetória de Amir Slama
Divulgação
Amir Slama

Não é exagero dizer que quase ninguém entende tanto de biquínis quanto Amir Slama. O estilista, conhecido por fundar a Rosa Chá em 1998, tornou a moda praia brasileira uma referência mundial. 

 

E o que essa reestreia significa para você?

Eu estou tranquilo, bem mais relaxado que das vezes anteriores. A gente fica mais maduro, entende melhor o mecanismo e o processo. Mas sempre dá uma ansiedade para mostrar o trabalho. Nós vamos mostrar a coleção masculina e feminina, vão ser como se fossem dois desfiles, primeiro um rápido com a masculina e na sequência o da feminina.

Você foi um dos responsáveis por tornar a moda praia brasileira um produto tipo exportação. A que fatores atribui o sucesso dos modelos?

Acho que elevei a moda praia brasileira a um prêt-à-porter. Quando comecei a trabalhar com isso, as pessoas não enxergavam a praia como moda. Depois que começamos a fazer esse trabalho ligando a moda praia não só a maiôs e biquínis, mas a uma roupa mais descontraída e com cara de lifestyle, conseguimos dar outra conotação ao produto. Fora do Brasil, nosso jeito de se vestir no verão sempre foi algo que atraiu muito. Então a ideia ganhou uma força maior quando chegamos com isso mais organizado e coordenado.

 

O que mudou daquele início, duas década atrás, até hoje?

Hoje você percebe que existem marcas fazendo esse produto de norte a sul. Antes, elas faziam maiôs e biquínis como lingerie, era um acessório, algo complementar. Agora a praia realmente é uma moda, forte tanto no mercado interno quanto no externo.

 

Como você enxerga o atual momento da moda no Brasil?

Acho que a gente é refém de um processo econômico complicado. Quem faz moda é meio guerreiro, porque para sobreviver a tudo isso, a uma crise que é não só econômica, mas financeira e moral, é um pouco complicado. Quem trabalha com moda no Brasil precisa ser muito apaixonado ou não consegue trabalhar.

Vivemos uma crise de consumo e uma crise moral

 

Você sente que há uma crise no mercado?

É um assunto até desgastado, mas é uma realidade. As empresas têm contas, despesas, folha de pagamento, faz parte. Vivemos uma crise de consumo e uma crise moral. As pessoas estão tão incomodadas que até quem pode gastar pensa duas vezes ou se envergonha. E é uma pena, porque o brasileiro tem uma relação com a moda muito forte. É um povo extremamente consumidor, que gosta de roupas, de estética, de beleza. Mas o fim do ano passado foi bem delicado no consumo.

  

Em 2009, você vendeu a Rosa Chá, marca que fundou em 1998 e com a qual fez história na moda praia. Como foi essa decisão?

Cresci muito rápido com a Rosa Chá. Em dez anos já estava com 20 e poucas lojas, operações fora do Brasil. Cheguei a um momento em que ou eu me juntava com alguém que pudesse fazer frente aos pontos fracos, que eram a produção e a logística de distribuição, ou eu teria que reduzir de tamanho, porque os recursos eram limitados. E aí surgiu um convite para fazer uma fusão que iria cobrir esses pontos fracos. Mas no decorrer do processo, por causa de diferenças de mentalidade e mudanças na gestão da empresa com a qual fiz a fusão, o que era para ser um incremento de produção e logística, não foi. Como a moda é algo muito dinâmico, em seis meses sem produto e sem produção, muitas franquias fecharam e me dei conta que eu não tinha feito uma fusão, que aquilo era uma venda. Então vendi o restante da marca e depois que me desliguei fecharam todas as lojas. Em dois anos não tinha mais nada.

 

Qual a sensação que tem hoje ao passar por uma Rosa Chá e ver que o conceito é outro, já que agora é uma marca de fast fashion?

Agora eu acho superbacana que ela voltou com uma outra cara, outro objetivo e princípio. O nome da marca é muito forte e isso me deixa muito satisfeito, ver que ela não morreu. É legal ver uma coisa que você montou com tanto carinho ressurgir.

 

A moda praia brasileira é muito copiada lá fora?

O Brasil hoje é definitivamente uma referência, mas a gente precisa prestar muita atenção e ter força para manter esse espaço. Acho que não temos marcas consolidadas fora do Brasil, nenhuma que seja sinônimo de praia lá fora. Vejo um potencial muito grande para construir isso.

 

A brasileira tem uma sensualidade muito explícita e sofisticada

Qual o segredo para criar um bom biquíni?

Prestar atenção a esse corpo brasileiro, que é muito particular. A brasileira tem uma sensualidade muito explícita e sofisticada. Acho que a mistura racial no Brasil gerou isso. Saber vestir essa mulher e esse homem faz com que a gente consiga criar peças bacanas, tanto na modelagem quanto na estamparia.

Você tem um ateliê para criação de peças exclusivas e sob medida. Há espaço para isso na moda praia? Que tipo de clientes atende?

Nós temos uma procura legal. São sempre coleções mais relaxadas, nunca algo muito formal, como se fossem pequenas coleções especiais para o cliente. Eu acredito que o luxo hoje perpassa por coisas mais exclusivas. Tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro eu atendo três clientes por mês, para quem eu desenvolvo coleções especiais. Quando fiz esse projeto, achei que seriam clientes que fugiriam de um tamanho regular e precisariam de peças especiais. Mas, para minha surpresa, a maioria segue um padrão de tamanho pequeno ou médio. O que elas querem é algo mais exclusivo. Elas gostam de moda e a entendem como um perfume dentro de um pequeno frasco.

 

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